A COMUNHÃO DE JOELHOS E NA BOCA - Reflexões de um bispo da Ásia Central

PREFÁCIO: DOMINUS EST(É O SENHOR):
No Livro do Apocalipse, São João conta como, tendo visto e ouvido aquilo que lhe foi revelado, se prostrava em adoração aos pés do anjo de Deus (Ap 22,8). Prostrar-se ou pôr-se de joelhos diante da majestade da presença de Deus, em humilde adoração, era um hábito de reverência que Israel tinha sempre na presença do Senhor. Diz o primeiro livro dos Reis: “Logo que Salomão acabou de fazer ao Senhor esta oração e esta súplica, levantou-se de diante do altar do Senhor, onde estava ajoelhado com as mãos levantadas para o céu. De pé, abençoou toda a assembléia de Israel” (1 Re 8, 54-55). A posição da súplica do Rei é clara: Ele estava de joelhos diante do altar.

A mesma tradição é visível também no Novo Testamento, onde vemos Pedro pôr-se de joelhos diante de Jesus (Lc 5,8); Jairo, para pedir-Lhe que curasse a sua filha (Lc 8,41), o Samaritano, que veio agradecer-Lhe e Maria, irmã de Lázaro, para pedir o favor da vida para seu irmão (Jo 11, 32). A mesma atitude de prostração, perante a admiração da presença e revelação divina, se nota de uma forma geral no Livro do Apocalipse (Ap 5, 8-14 e 19,4).

Intimamente ligada a esta tradição, estava a convicção de que o Templo Santo de Jerusalém era a morada de Deus, e por isso no templo era necessário colocar-se em atitudes corporais expressivas de um profundo sentido de humildade e reverência, na presença do Senhor. Também na Igreja, a convicção profunda de que nas espécies Eucarísticas o Senhor está verdadeira e realmente presente e a crescente prática de conservar a santa comunhão nos sacrários, contribuiu para a prática de ajoelhar-se, em atitude de humilde adoração do Senhor, na Eucaristia.

De facto, a respeito da presença real de Cristo nas espécies Eucarísticas, o Concílio de Trento proclamou: “in almo sanctae Eucharistiae sacramento post panis et vivi consecrationem Dominum nostrum Jesum Christum verum Deum atque hominem vere, realiter ac substantialiter sub specie illarum rerum sensibilium contineri” (DS 1651).

Além disso, São Tomás de Aquino tinha já definido a Eucaristia latens Deitas (São Tomás, Hinos). E a fé na presença real de Cristo nas espécies eucarísticas pertencia já desde então à essência da fé da Igreja Católica e era parte intrínseca da identidade católica. Era claro que se não podia edificar a Igreja se tal fé fosse minimamente atacada.

Por isso, a Eucaristia, Pão transubstanciado no Corpo de Cristo e vinho no Sangue de Cristo, Deus no meio de nós, devia ser acolhido com admiração, máxima reverência e num comportamento de humilde adoração. O Papa Bento XVI, recordando as palavras de Santo Agostinho “nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoraverit; peccemus non adorando” (Enarrationes in Psalmos, 89, 9; CCL XXXIX, 1385) sublinha que “receber a Eucaristia significa pôr-se em atitude de adoração para com Aquele que recebemos (...) só na adoração pode amadurecer um acolhimento profundo e verdadeiro” (Sacramentum Caritatis, 66).

Seguindo esta tradição, é claro que assumir gestos do corpo e do espírito que facilitam o silêncio, o recolhimento, a humilde aceitação da nossa pobreza diante da infinita grandeza e santidade d’Aquele que vem ao nosso encontro nas espécies eucarísticas tornava-se coerente e indispensável.

O melhor modo de exprimir o nosso sentimento de reverência para com o Senhor Eucarístico era o de seguir o exemplo de Pedro que, como conta o Evangelho, se prostrou de joelhos diante do Senhor e disse: “Senhor, afasta-Te de mim, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8).
Ora, nota-se como nalgumas igrejas, tal prática não existe, e os responsáveis, não só impõem aos fiéis que recebam a Santíssima Eucaristia de pé, mas eliminaram mesmo todos os genuflexórios, forçando assim os seus fiéis a estar sentados ou de pé, mesmo durante a elevação das espécies Eucarísticas apresentadas para a adoração.

É estranho que tais comportamentos tenham sido tomados nas dioceses, pelos próprios responsáveis da liturgia, ou nas igrejas, pelos párocos, sem a mais pequena consulta dos fiéis, embora hoje, mais do que nunca, se fale em muitos ambientes, de democracia na Igreja.
Ao mesmo tempo, falando da comunhão na mão, importa reconhecer que foi uma prática introduzida abusivamente e à pressa em alguns ambientes da Igreja, imediatamente depois do Concílio, mudando assim a secular prática precedente e tornando-se agora a prática regular para toda a Igreja. E justificava-se tal mudança, dizendo que refletia melhor o Evangelho ou a antiga prática da Igreja.

É verdade que se se recebe na língua, se poderá também receber na mão, uma vez que este órgão do corpo é igual em dignidade. Alguns, para justificar uma tal prática, referem-se às palavras de Jesus: “Tomai e comei” (Mc 14,22; Mt 26,26).

Quaisquer que sejam as razões com que defendem esta prática, não podemos deixar de ignorar aquilo que sucede a nível mundial, onde tal prática seja realizada. Este gesto contribui para um gradual e crescente enfraquecimento da atitude de reverência para com as sagradas espécies Eucarísticas. A prática precedente, pelo contrário, salvaguarda melhor este sentimento de reverência. Entretanto, acabaram por entrar: uma alarmante falta de recolhimento e um espírito de generalizada falta de atenção. Vêem-se agora comungantes, que tantas vezes voltam para os seus lugares como se nada de extraordinário tivesse acontecido. E de uma forma bem particularmente distraídas são as crianças e adolescentes. Em muitos casos, não se nota esse sentido de seriedade e silêncio interior, que devem assinalar a presença de Deus na alma.

Há, depois, abusos de quem leva para fora as sagradas espécies, para tê-las como recordação, de quem as vende, ou, pior ainda, de quem as leva para fora para as profanar em ritos satânicos. Tais situações foram devidamente postas em relevo. Mesmo nas grandes concelebrações, até mesmo em Roma, várias vezes foram encontradas espécies sagradas lançadas por terra.

Esta situação não nos leva apenas a refletir na grave perda de fé, mas também nos ultrajes e ofensas feitas ao Senhor, que se digna vir ao nosso encontro, querendo tornar-nos semelhantes a Ele, a fim de que estampe em nós a santidade de Deus.
O Papa fala da necessidade, não só de compreender o verdadeiro e profundo significado da Eucaristia, mas também de celebrá-lo com dignidade e reverência. Diz que é necessário estar conscientes da importância “dos gestos e da compostura, como o ajoelhar-se durante os momentos salientes da Oração Eucarística” (Sacramentum Caritatis, 65).

Além disso, falando da recepção da Sagrada Comunhão, convida a todos a: “fazer o possível para que o gesto, na sua simplicidade, corresponda ao seu valor de encontro pessoal com o Senhor Jesus Cristo no Sacramento” (Sacramentum Caritatis, 50).
Nesta óptica, é de apreciar o Livrinho escrito por S. E. Mons. Athanasius Schneider, Bispo auxiliar de Karaganda, no Kazakhstan, com o título muito significativo “Dominus est” (É o Senhor) . Ele mesmo quer dar um contributo para a discussão atual sobre a Eucaristia, presença real e substancial de Cristo nas espécies consagradas do Pão e do Vinho.

É significativo que Mons. Schneider inicie a sua Apresentação com uma nota pessoal, recordando a profunda fé eucarística de sua mãe e de outras duas senhoras, fé conservada no meio de tantos sofrimentos e sacrifícios que a pequena comunidade dos católicos desse País sofreu, nos anos da perseguição soviética. Partindo desta sua experiência, que suscitou nele uma grande fé, admiração e devoção ao Senhor, presente na Eucaristia, ele apresenta-nos um ensaio histórico-teológico que esclarece como a prática de receber a Sagrada Comunhão na boca e de joelhos foi acolhida e praticada na Igreja por um longo período de tempo.

Agora, eu creio que terá chegado o momento de avaliar bem a referida prática e de rever e, se necessário, abandonar a atual que, de fato, não foi indicada, nem na própria Sacrosanctum Concilium, nem pelos Padres Conciliares, mas foi aceite, depois de uma introdução abusiva em alguns Países. Agora, mais do que nunca, é necessário ajudar os fiéis a renovar uma viva fé na presença real de Cristo nas espécies Eucarísticas, com o fim de reforçar a própria vida da Igreja e de a defender, no meio das perigosas distorções da fé que uma tal situação continua a causar.
As razões para uma tal iniciativa devem ser, não tanto as acadêmicas mas as pastorais - tanto espirituais como litúrgicas - numa palavra, aquilo que melhor edifica a fé.

Mons. Schneider, neste sentido, mostra uma louvável coragem, porque soube colher o verdadeiro significado das palavras de São Paulo: “Que tudo isto se faça de modo a edificar” (1 Cor 14,26).

+ MALCOLM RANJITH
Secretário da Congregação do Culto Divino
e da Disciplina dos Sacramentos

 

I - “Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat”


SENHORAS "EUCARÍSTICAS" 

E A SAGRADA COMUNHÃO  NA CLANDESTINIDADE SOVIÉTICA


O regime comunista soviético, que durou cerca de 70 anos (1917-1991) tinha a pretensão de estabelecer uma espécie de paraíso na terra. Mas este reino não podia ter consistência, uma vez que era fundado na mentira, na violação da dignidade do homem, na negação e mesmo no ódio a Deus e à sua Igreja. Era um reino em que Deus e os valores espirituais não podiam e não deviam ter espaço algum. Todo o sinal que poderia recordar aos homens Deus, Cristo e a Igreja, era tirado da vida pública e da vista dos homens. Existia, porém, uma realidade que, na maioria dos casos, recordava aos homens Deus: o sacerdote. Por esta razão, o sacerdote não devia ser visível, e tão pouco devia existir. Para os perseguidores de Cristo e da Sua Igreja, o sacerdote era a pessoa mais perigosa. E talvez eles conhecessem mesmo, implicitamente, a razão pela qual o sacerdote era considerado a pessoa mais perigosa. A verdadeira razão era esta: só o sacerdote podia dar Deus aos homens, dar Cristo da maneira mais concreta e direta possível, isto é, através da Eucaristia e da Sagrada Comunhão. Por isso, era proibida a celebração da Santa Missa. Mas nenhum poder humano estava em condições de vencer o poder Divino, que agia no mistério da Igreja e, sobretudo, nos Sacramentos.

Durante esses anos bem nebulosos, a Igreja, no imenso império soviético, via-se forçada a viver na clandestinidade. Mas a coisa mais importante era esta: a Igreja era viva, ou melhor, vivíssima, se bem que lhe faltassem edifícios sagrados, se bem que houvesse uma enorme escassez de sacerdotes. A Igreja era vivíssima, porque lhe não faltava de todo a Eucaristia - muito embora bem raramente acessível aos fiéis - porque não lhe faltavam almas com fé bem firme no mistério eucarístico, porque não lhe faltavam mulheres, muitas vezes mães e avós, com uma alma “sacerdotal” que guardavam e mesmo administravam a Eucaristia com amor extraordinário, com delicadeza e com a máxima reverência possível, no espírito dos cristãos dos primeiros séculos, que se exprimia no adágio: “cum amore ac timore” (com amor e temor).
Entre os numerosos exemplos de mulheres “eucarísticas” do tempo da clandestinidade soviética, será aqui apresentado o exemplo de três mulheres do conhecimento pessoal do autor: Maria Schneider (mãe do autor), Pulcheria Koch (irmã do avô do autor , Maria Stang (paroquiana da diocese de Karaganda).

Maria Schneider, minha mãe, contava-me: depois da segunda guerra mundial, o regime stalinista deportava muitos alemães do Mar Negro e do rio Volga para os montes Urais, para se servir deles em trabalhos forçados. Todos eram internados em paupérrimas barracas, num gueto da cidade. Muitas vezes, iam ter com eles, no máximo segredo, alguns sacerdotes católicos, para lhes administrar os sacramentos. E faziam-no, pondo em grave perigo a sua própria vida. Entre esses sacerdotes, que vinham mais frequentemente, estava o Padre Alexij Saritski (sacerdote ucraniano greco-católico e biritualista, morto como mártir no dia 30.10.1963, próximo de Karaganda e beatificado pelo Papa João Paulo II no ano 2001). Os fiéis chamavam-no afetuosamente “o vagabundo de Deus”.

No mês de Janeiro de 1958, na cidade de Krasnokamsk, perto de Perm, nos montes Urais, inesperadamente, chegou em segredo Padre Alexij, proveniente do lugar do seu exílio, da cidade de Karaganda, no Kazakhstan.
Padre Alexij empenhava-se em que o maior número possível de fiéis fosse preparado para receber a Sagrada Comunhão. Por isso, ele mesmo se dispunha a ouvir a confissão dos fiéis literalmente dia e noite, sem dormir e sem comer. Os fiéis continuamente lhe diziam: “Padre, deve comer e dormir!” Mas ele respondia: “Não posso, porque a polícia pode prender-me de um momento para o outro e, depois, tantas pessoas ficariam sem se confessar e, por isso, sem comungar” . Logo que todos se haviam confessado, Padre Alexij começou a celebrar a Santa Missa. Inesperadamente, uma voz se ouviu: “A polícia está próxima!”. Maria Schneider assistia à Santa Missa e disse ao sacerdote: “Padre, eu posso escondê-lo, fujamos!” A mulher conduziu o sacerdote para uma casa fora do gueto alemão e escondeu-o num quarto, levando-lhe também alguma coisa de comer e disse: “Padre, agora, o senhor pode finalmente comer e repousar um pouco e, quando chegar a noite, fugiremos para a cidade mais próxima”. Padre Alexij estava triste, porque todos estavam confessados, mas não tinham podido receber a Sagrada Comunhão, porque a Santa Missa que apenas tinha começado tinha sido interrompida por causa da aproximação da polícia. Maria Schneider disse: “Padre, todos os fiéis farão com muita fé e devoção a Comunhão espiritual e esperamos que o Senhor possa regressar, para dar-nos a Sagrada Comunhão”.

Chegada a noite, começou-se a preparar a fuga. Maria Schneider deixou os seus dois filhos pequenos (um menino de dois anos e uma menina de seis meses) com sua mãe e chamou Pulcheria Kock (a tia de seu marido). As duas mulheres chamaram o Padre Alexij e fugiram, uns 12 quilômetros através do bosque, com neve e ao frio nada menos que a 30 graus abaixo de zero. Chegaram a uma pequena estação, compraram o bilhete para o Padre Alexij e sentaram-se na sala de espera, porque tinham de esperar ainda uma hora pela chegada do combóio. Inesperadamente abriu-se a porta e entrou um policial que se dirigiu diretamente ao Padre Alexij. Diante do Padre perguntou-lhe: “o senhor onde vai?” O Padre não ficou em condições de responder pelo seu espanto. Ele não temia pela sua vida, mas pela vida e pelo destino da jovem mãe Maria Schneider.

Pelo contrário, a jovem mulher respondeu ao polícia: “Este é nosso amigo e nós acompanhamo-lo. Eis o seu bilhete” e entregou o bilhete ao polícia. Este, guardando o bilhete, disse ao sacerdote: “Por favor, não entre no último vagão, porque esse será desligado do resto do comboio na próxima estação. Boa viagem!”. E imediatamente, o polícia saiu da sala. Padre Alexij olhou para Maria Schneider e disse-lhe: “Deus mandou-nos um anjo! Jamais esquecerei aquilo que ele fez por mim. Se Deus mo permitir, regressarei, para dar-vos a Sagrada Comunhão e em todas as minhas Missas rezarei por si e por seus filhos”.
Passado um ano, Padre Alexij, pôde regressar a Krasnokansk. Desta vez, pôde celebrar a Santa Missa e dar a Sagrada Comunhão aos fiéis. Maria Schneider pediu-lhe um favor: “Padre, poderia deixar-me uma hóstia consagrada, porque minha mãe está gravemente doente e ela desejaria muito receber a Comunhão, antes de morrer?”

Padre Alexij deixou uma hóstia consagrada, sob a condição de que se administrasse a Sagrada Comunhão com o máximo respeito possível. Maria Schneider prometeu agir desse modo. Antes de se transferir, com a sua família, para Kirghistan, Maria administrou a sua mãe, doente, a Sagrada Comunhão. Para o fazer, ela pôs luvas brancas novas e, com uma pinçazinha, deu a Comunhão a sua mãe. Depois, queimou a bolsa em que estava depositada a hóstia consagrada.
As famílias de Maria Schneider e de Pulcheria Koch transferiram-se depois para Kirghistan. Em 1962, Padre Alexij, visitou secretamente Kirghistan e encontrou Maria e Pulcheria, na cidade de Tokmak. Celebrou a Santa Missa na casa de Maria Schneider e, seguidamente, ainda uma outra vez, na casa de Pulcheria Koch. Como gesto de gratidão a Pulcheria, esta mulher anciã que o tinha ajudado a fugir no escuro e no frio do inverno dos montes Urais, Padre Alexij, deixou-lhe uma hóstia consagrada, dando-lhe, porém, uma instrução bem precisa: “Deixo-lhe uma hóstia consagrada. Faça a devoção dos primeiros nove meses em honra do Sagrado Coração de Jesus. Todas as primeiras sextas-feiras do mês, a senhora faça a exposição do Santíssimo na sua casa, convidando para a adoração pessoas de absoluta confiança, e tudo deverá ser feito com a máxima segurança e no maior segredo. Depois do nono mês, a senhora poderá consumir a hóstia, mas faça-o com a maior reverência possível!” E assim se fez. Durante nove meses, houve em Tormak uma adoração eucarística clandestina. Também Maria Schneider estava entre as adoradoras.

Estando de joelhos diante da pequenina hóstia, todas as senhoras adoradoras, estas senhoras verdadeiramente eucarísticas desejavam ardentemente receber a Sagrada Comunhão. Mas, infelizmente, havia apenas uma pequena hóstia e, ao mesmo tempo, numerosas pessoas desejosas de comungar. Por isso, Padre Alexij tinha decidido que, no fim dos nove meses, a recebesse apenas Pulcheria e todas as outras mulheres fizessem a Comunhão espiritual. No entanto, estas Comunhões espirituais eram muito preciosas, porque tornavam estas mulheres “eucarísticas” capazes de transmitir aos seus filhos, por assim dizer, com o leite materno, uma profunda fé e um grande amor à Eucaristia.
A entrega daquela pequena hóstia consagrada a Pulcheria Koch, na cidade de Tokmak, em Kirghistan, foi a última ação pastoral do Beato Alexij Saritski. Imediatamente depois do seu regresso a Karaganda, da sua viagem missionária a Kirghistan, no mês de Abril do ano de 1962, Padre Alexij foi preso pela polícia secreta e posto no campo de concentração de Dolinks, perto de Karaganda.

Depois de muitos maus tratos e humilhações, Padre Alexij obteve a palma do martírio “ex aerumnis carceris” , no dia 30 de Outubro de 1963. Neste dia, celebra-se a sua memória litúrgica, em todas as igrejas católicas de Kazakhstan e da Rússia; a Igreja greco-católica ucraniana celebra-o, juntamente com outros mártires ucranianos, no dia 27 de Junho. Foi um santo eucarístico que conseguiu educar mulheres eucarísticas. Estas mulheres eucarísticas eram como flores crescidas na escuridão e no deserto da clandestinidade, tornando assim a Igreja verdadeiramente viva.

O terceiro exemplo de mulher “eucarística” é o de Maria Stang, uma alemã do Volga, deportada para o Kazakhstan. Esta mãe e avó santa teve uma vida plena de incríveis sofrimentos, de contínuas renúncias e sacrifícios. Mas foi uma pessoa com muita fé, esperança e alegria espiritual. Já desde jovem, queria dedicar a sua vida a Deus. Por causa da perseguição comunista e da deportação, o caminho da sua vida foi doloroso. Maria Stang escreve nas suas memórias: “Tiraram-nos os sacerdotes. Na aldeia vizinha, havia ainda a igreja, mas infelizmente já não tinha sacerdote, já não tinha o Santíssimo. Mas sem o sacerdote, sem o Santíssimo, a igreja era tão fria. Eu via-me forçada a chorar amargamente”. A partir desse momento, Maria começou a rezar todos os dias e a oferecer sacrifícios a Deus, com esta oração: “Senhor, dai-nos de novo um sacerdote, dai-nos a Sagrada Comunhão! Tudo sofro de muito boa vontade por Vosso Amor, ó Santíssimo Coração de Jesus!” No interminável lugar de deportação do Kazakhstan oriental, Maria Stang reunia secretamente em sua casa, todos os domingos, outras mulheres para a oração. Durante essas assembléias dominicais, as mulheres muitas vezes choraram e rezaram assim: “Maria, nossa Santíssima e caríssima Mãe, vede como estamos pobres. Dai-nos de novo sacerdotes, doutores e pastores!”.
A partir do ano de 1965, Maria Stang conseguiu viajar uma vez por ano, a Kirghistan, onde vivia um sacerdote católico no exílio (a uma distância de mais de mil quilômetros). Nas imensas aldeias do Kazakhstan oriental, os católicos alemães não viam um sacerdote já há mais de vinte anos. Maria escreve: “Quando cheguei a Frunse (hoje Bishkek) em Kirghistan, encontrei um sacerdote. Entrando na sua casa, vi o sacrário. Não podia imaginar que, na minha vida, pudesse ver ainda uma vez mais o sacrário e o Senhor Eucarístico. Ajoelhei-me e comecei a chorar. Depois, aproximei-me do sacrário e beijei-o”.

Antes de partir para a sua viagem, para o Kasakhstan, o sacerdote entregou a Maria Stang uma píxide com algumas hóstias consagradas.
Na primeira vez que se reuniram os fiéis na presença do Santíssimo, Maria disse-lhes: “Temos uma alegria e uma felicidade que ninguém pode imaginar: temos conosco o Senhor Eucarístico e podemos recebê-Lo” . As pessoas presentes responderam: “Não podemos receber a Comunhão, porque já há tantos anos que nos não confessamos”. Depois, os fiéis reuniram-se em conselho e tomaram a seguinte decisão: “Os tempos são dificílimos e já que nos foi trazido o Santíssimo de a mais de mil quilômetros, Deus ser-nos-á propício. Metermo-nos-emos espiritualmente no confessionário diante do sacerdote, faremos um ato de contrição perfeita e cada um de nós se imporá a si mesmo uma penitência”. E assim fizeram todos; e, depois, receberam a Sagrada Comunhão, ajoelhados e num vale de lágrimas. Eram lágrimas, ao mesmo tempo, de contrição e de alegria.

Durante 30 anos, Maria Stang reunia todos os domingos os fiéis para a oração, ensinava às crianças e aos adultos o catecismo, preparava os esposos para o sacramento do matrimônio, realizava os ritos das exéquias e, sobretudo, administrava a Sagrada Comunhão. Sempre distribuía a Comunhão com um coração ardente e com um temor de extraordinária reverência. Era uma mulher com uma alma verdadeiramente sacerdotal, uma mulher eucarística!

 

II - “Cum amore ac timore”


(Com amor e temor)

Algumas observações histórico-litúrgicas sobre a Sagrada Comunhão

1 - O grande Papa João Paulo II, na sua última encíclica, Ecclesia de Eucharistia, deixou à Igreja uma advertência ardente que soa como um verdadeiro testamento: “Devemos ocupar-nos a toda a pressa em não atenuar alguma dimensão ou exigência da Eucaristia. Assim nos demonstramos verdadeiramente conscientes da grandeza deste dom... Não há perigo de exagerar no cuidado a ter com este mistério!” (n. 61).
A consciência da grandeza do mistério eucarístico mostra-se particularmente evidente na maneira como é distribuído e recebido o Corpo do Senhor. Isto se revela evidente no rito da Comunhão, na medida em que ela constitui a consumação do sacrifício eucarístico. Para o fiel ela é o ponto culminante do encontro e da união pessoal com Cristo, real e substancialmente presente sob o humilde véu das espécies eucarísticas. Este momento da liturgia eucarística tem verdadeiramente uma importância eminente que comporta uma especial exigência pastoral, mesmo no aspecto ritual do gesto.

2 - Consciente da grandeza e importância do momento da Sagrada Comunhão, a Igreja, na sua bimilenária tradição, tem procurado encontrar uma expressão ritual que pudesse testemunhar, do modo mais perfeito possível, a sua fé, o seu amor e o seu respeito. Isto mesmo se tem unificado quando, na esteira de um desenvolvimento orgânico, pelo menos a partir do século VI, a Igreja começou a adotar a modalidade de distribuir as sagradas espécies eucarísticas diretamente na boca. Assim o testemunham: a biografia do Papa Gregório Magno (pontífice nos anos 590-604) e uma indicação do mesmo Papa.
O sínodo de Córdova do ano 839 condenou a seita dos chamados “casiani”, por causa da sua recusa de receber a sagrada Comunhão directamente na boca. Depois, o sínodo de Rouen, no ano 878, confirmava a norma vigente da distribuição do Corpo do Senhor na língua, ameaçando os ministros sagrados de suspensão do seu cargo, se tivessem distribuído aos leigos a Sagrada Comunhão na mão.

No Ocidente, o gesto de prostrar-se e ajoelhar-se, antes de receber o Corpo do Senhor, observa-se nos ambientes monásticos, já a partir do século VI (por exemplo, nos mosteiros de São Columbano). Mais tarde, nos séculos X e XI, este gesto divulgou-se ainda mais.
No fim da era patrística, a prática de receber a Sagrada Comunhão diretamente na boca passa a ser por isso uma prática já difundida e quase universal. Este desenvolvimento orgânico pode considerar-se como um fruto da espiritualidade e da devoção eucarística do tempo dos Padres da Igreja. De fato, há várias exortações dos Padres da Igreja sobre a máxima veneração e cuidado para com o Corpo eucarístico do Senhor, particularmente a propósito dos fragmentos do pão consagrado. Quando se começou a notar que já não existiam as condições em que se podiam garantir as exigências do respeito e do caráter altamente sagrado do pão eucarístico, a Igreja, quer no Ocidente quer no Oriente, num admirável consenso e quase instintivamente apercebeu-se da urgência de distribuir a Sagrada Comunhão aos leigos apenas na boca.
O conhecido liturgista J.A.Jungmann explicava que, por causa da distribuição da Comunhão diretamente na boca, se eliminaram várias preocupações: que os fiéis devem ter as mãos lavadas, a preocupação ainda mais grave para que nenhum fragmento do pão consagrado se perca, a necessidade de purificar as palmas das mãos, depois da recepção do sacramento. O pano de Comunhão e, mais tarde, a bandeja da Comunhão serão uma bem clara expressão de um cada vez maior cuidado a respeito do sacramento eucarístico.
Para este desenvolvimento contribuiu igualmente um crescente aprofundamento da fé na presença real, que se exprimiu no Ocidente, por exemplo, na prática da adoração do Santíssimo sacramento solenemente exposto.

3 - O Corpo e o Sangue eucarísticos são os dons por excelência que Cristo deixou à Igreja, Sua esposa. O Papa João Paulo II fala, na encíclica Ecclesia de Eucharistia, da “admiração adorante frente ao dom incomensurável da Eucaristia” (n. 48), que se deve manifestar mesmo nos gestos externos: “Na onda deste elevado sentido do mistério se compreende como a fé da Igreja no mistério eucarístico se tenha expresso na história, não apenas através da instância de uma interior atitude de devoção, mas também através de uma série de expressões externas” (ibid. n. 49).
Por isso, o comportamento mais conforme com este dom é o comportamento da receptividade, a atitude de humildade do centurião, a atitude de deixar-se alimentar, justamente a atitude da criancinha. Isto vem expresso, mesmo nas seguintes e bem famosas palavras de um hino eucarístico: “O pão dos anjos torna-se pão dos homens... Ó coisa admirável: o servo pobre e humilde come o Senhor!”.

A palavra de Cristo, que nos convida a acolher o Reino de Deus como uma criança (Lc 18,17), pode encontrar a sua ilustração, de um modo bem sugestivo e belo, mesmo no gesto de receber o pão eucarístico diretamente na boca e de joelhos. Este rito manifesta, de um modo oportuno e feliz, o comportamento interior da criança que se deixa alimentar, unido ao gesto de humildade do centurião e ao gesto da admiração adorante.
O Papa João Paulo II punha em evidência a necessidade de expressões externas de respeito para com o pão eucarístico: “Se a lógica do “banquete” inspira familiaridade, a Igreja não tem nunca cedido à tentação de banalizar esta “familiaridade” com o seu Esposo, esquecendo-se de que Ele é também o Senhor. ... O banquete eucarístico é na realidade banquete “sagrado”, em que a simplicidade dos sinais esconde o abismo da santidade de Deus. O pão que é partido nos nossos altares... é pão dos anjos, do qual se não pode aproximar senão com a humildade do centurião do Evangelho” .

O comportamento da criança é o mais verdadeiro e profundo comportamento de um cristão diante do seu Salvador, que a alimenta com o Seu Corpo e o Seu Sangue, segundo as seguintes e bem comoventes expressões de Clemente de Alexandria: “O Logos é tudo para a criança: pai, mãe, pedagogo, nutridor. “Comei, diz Ele, a Minha carne e bebei o Meu sangue!”... Ó incrível mistério!” .
É possível supor que Cristo, durante a última Ceia, tenha dado o pão a cada Apóstolo diretamente na boca, e não apenas a Judas Iscariotes (Jo 13, 26-27). De fato, existia uma tradicional prática, no ambiente do Médio Oriente, no tempo de Jesus, e que dura ainda nos nossos dias: o chefe da casa alimenta os seus hóspedes com a sua própria mão, metendo um pedaço simbólico de alimento na boca dos hóspedes.
Uma outra consideração bíblica é fornecida pelo relato da vocação de Ezequiel. Ezequiel recebeu a palavra de Deus simbolicamente, diretamente na boca: “Abre a boca e come o que Eu te vou dar. Olhei e vi que uma mão se estendia para mim, a qual segurava um manuscrito enrolado... Abri a boca e fez-me engolir. Comi-o, pois, e na minha boca era doce como o mel” (Ez 2, 8-9; 3, 2-3).

Na Sagrada Comunhão, recebemos a Palavra, feita carne, feita alimento para nós pequenos, para nós criancinhas. Por conseguinte, quando nos aproximamos da Sagrada Comunhão, poderemos recordar-nos desse gesto do profeta Ezequiel, ou também da palavra do Salmo 81,11, que se encontra na liturgia das Horas da solenidade do Corpo e Sangue de Cristo: “Abre a tua boca e Eu a encherei” (dilata os tuum et implebo illud).
Cristo alimenta-nos verdadeiramente com o Seu Corpo e Sangue, na Sagrada Comunhão e isto é comparado, na idade patrística, com o aleitamento materno, como o demonstram estas sugestivas palavras de São João Crisóstomo: “Com este mistério eucarístico, Cristo une-Se a todo o fiel e aqueles que gerou alimenta-os por Si mesmo e não os confia a um outro. Acaso não vedes com quanto entusiasmo os recém-nascidos aproximam os seus lábios do peito da mãe? Pois bem, aproxima-nos também nós com um tal ardor desta sagrada mesa e do peito desta bebida espiritual; ou antes, com um ardor ainda maior do que o dos que são amamentados!”.

O gesto de uma pessoa adulta, que está de joelhos e abre a sua boca, para se deixar alimentar como uma criancinha, corresponde de um modo muito feliz e impressionante às advertências dos Padres da Igreja, sobre o comportamento a ter durante a Sagrada Comunhão, isto é: “cum amore ac timore” (com amor e temor).
O gesto mais típico da adoração é o bíblico de ajoelhar-se, como o receberam e praticaram os primeiros cristãos. Para Tertuliano, que viveu entre o II e o III século, a mais alta forma de oração é o acto de adoração a Deus, que se deve manifestar também no gesto da genuflexão.
“Rezam todos os anjos, reza toda a criatura, rezam os animais e as feras e dobram os joelhos”.
Santo Agostinho advertia que nós pecamos, se não adoramos o Corpo eucarístico do Senhor, quando O recebemos: “Ninguém coma essa carne, se antes a não adorou. Pecamos, se a não adoramos”.

Numa antiga Ordo communionis da tração litúrgica da Igreja copta, foi estabelecido: “Todos se prostram por terra, pequenos e grandes, e assim comece a distribuição da Comunhão”.
Segundo as Catequeses Mistagógicas, atribuidas a São Cirilo de Jerusalém, o fiel deve receber a Comunhão, com um gesto de adoração e veneração: “Não estendas as mãos, mas num gesto de adoração e veneração, aproxima-te do cálice do Sangue de Cristo”.
São João Crisóstomo exorta aqueles, que se aproximam do Corpo eucarístico do Senhor a imitar os Magos do Oriente, no espírito e no gesto da adoração: “Aproximemo-nos, pois, d’Ele com fervor e ardente caridade. Este corpo, embora se encontrasse numa manjedoura, adoraram-no os próprios Magos. Ora, esses homens, sem conhecimento da religião e sendo bárbaros, adoraram o Senhor com grande temor e tremor. Pois bem, nós que somos cidadãos dos céus, procuremos pelo menos imitar estes bárbaros! Tu, com diferença dos Magos, não vês simplesmente este corpo, mas conheceste toda a sua força e todo o seu poder salvífico. Incitemo-nos, pois, a nós mesmos, tremamos e mostremos uma piedade maior que a dos Magos”.

Já no século VI, nas igrejas gregas e siro-orientais, se prescrevia uma tríplice prostração, antes de se aproximar da Sagrada Comunhão.
Sobre a estrita ligação entre a adoração e a Sagrada Comunhão, assim falava sugestivamente o Cardeal J. Ratzinger: “Alimentar-se (da Eucaristia)... é um evento espiritual, que investe toda a realidade humana. “Alimentar-se” dela significa adorá-la. Por isto, a adoração... nem sequer se põe ao lado da Comunhão: a Comunhão atinge a sua profundidade, só quando é sustentada e absorvida pela adoração”. Por conseguinte, perante a humildade de Cristo e o Seu Amor, comunicado a cada um de nós nas espécies eucarísticas, não se pode senão ajoelhar-se. O Cardeal Ratzinger observava ainda: “O dobrar os joelhos na presença do Deus vivo é irrenunciável” . No Livro do Apocalipse, o livro da liturgia celeste, o gesto da prostração dos 24 anciãos diante do Cordeiro, pode ser o modelo e o critério de como a Igreja, na terra, deve tratar o Cordeiro de Deus, quando os fiéis se aproximam d’Ele e O tocam sob as espécies eucarísticas.

As normas litúrgicas da Igreja não exigem um gesto de adoração para aqueles que comungam de joelhos, pois o fato de se ajoelhar exprime por si mesmo a adoração. Pelo contrário, aqueles que comungam de pé devem, antes, fazer um gesto de reverência, isto é, de adoração.
Maria, a Mãe do Senhor, é o modelo de comportamento interior e exterior, no receber o Corpo do Senhor. No momento da Encarnação do Filho de Deus, Ela mostrava a máxima receptividade e humildade: “eis a escrava”. O gesto exterior mais conforme com este comportamento é o de estar de joelhos (como se vê não raramente na iconografia da Anunciação). O modelo da adoração amorosa da Virgem Maria “deve inspirar toda a nossa Comunhão eucarística” , disse o Papa João Paulo II.

O momento de receber o Corpo eucarístico do Senhor é certamente a ocasião mais apta para o fiel, nesta vida terrena, para exteriorizar o seu comportamento interior, “abismando-se na adoração e num amor sem limites”.
Num sentido semelhante, falava também o Beato Papa João XXIII: “O beato Eymard deixou escrito que, metendo-nos nos passos de Jesus, jamais se deixará Maria, e este belo título de Nossa Senhora do Sacramento põe-nos a todos de joelhos, como criancinhas submissas que seguem o exemplo da sua boa mãe, perante o grande mistério de amor de Seu bendito Filho Jesus”.

O modo de distribuir a Comunhão - às vezes, não apreciado devidamente na sua importância - reveste na realidade uma importância significante e tem conseqüências na fé e na devoção dos fiéis, na medida em que reflete visivelmente a fé, o amor e a delicadeza com que a Igreja trata o Seu Divino Esposo e Senhor, nas humildes espécies do pão e do vinho.
A consciência de que, nas humildes espécies eucarísticas está realmente presente toda a majestade de Cristo, Rei dos céus, diante do qual se prostram em adoração todos os anjos, era vivíssima nos tempos dos Padres da Igreja. Entre muitas vozes, basta citar a seguinte comovente advertência de São João Crisóstomo: “Já aqui este mistério te faz a terra, céu. Abre, pois, as portas do céu e olha; ou antes, não do céu, mas do Céu dos céus, e então poderás ver a verdade de tudo quanto te foi dito. De fato, como num palácio real, a parte mais suntuosa de todas não é dada nem pelos muros nem pelos tecto de ouro, mas pelo corpo do rei que se senta no trono; o mesmo vale para o corpo do Rei que está nos Céus. Pois bem, este corpo agora é te possível vê-lo aqui, na terra. Eu mostro-te, de fato, não anjos, nem arcanjos, não céus e céus dos céus, mas o seu próprio Senhor”.

4 - Os Padres da Igreja mostraram uma viva preocupação, a fim de que não se perdesse sequer um mínimo fragmento do pão eucarístico, como exortava São Cirilo de Jerusalém de uma forma tão sugestiva: “Sê vigilante, a fim de que não percas nada do Corpo do Senhor. Se tu deixasses cair algo, deverias considerá-lo como se tivesses cortado um dos membros do teu próprio corpo. Diz-me, peço-te, se alguém te desse grãozinhos de ouro, não os segurarias porventura com a máxima cautela e diligência, com a intenção de não perder nada? Acaso não deverias cuidar, com a máxima cautela e vigilância ainda maior, a fim de que nada e tão pouco um fragmentozinho do Corpo do Senhor pudesse cair por terra, porque é, de longe, bem mais precioso do que o ouro ou pedras preciosas?”.
Já Tertuliano dava testemunho da angústia e da dor da Igreja (no século II e III) para que se não perdesse nenhum fragmento: “Sofremos uma verdadeira angústia para que nada do cálice ou do pão caia por terra”.

O extremo cuidado e veneração pelos fragmentos do pão eucarístico era um fenômeno característico nas comunidades cristãs do século III conhecidas por Orígenes: “Vós, que por norma assistis aos divinos mistérios, recebendo o Corpo do Senhor, sabei como deveis guardá-Lo com todo o cuidado e veneração, a fim de que nem sequer cada um dos fragmentos caia por terra e não se perca algo do dom consagrado”.
O fato de que um fragmento eucarístico caísse por terra considerava-o São Jerônimo preocupante e um perigo espiritual: “Quando vamos receber o Corpo de Cristo, - quem é fiel que o entenda - se caísse um fragmento por terra, sintamo-nos em perigo”.
Na tradição litúrgica da Igreja copta, encontra-se a seguinte advertência: “Não há diferença alguma entre as partes maiores ou menores da Eucaristia, mesmo as mínimas que se não podem reconhecer com a agudeza da vista; todas elas merecem a mesma veneração e possuem a mesma dignidade que o pão inteiro”.

Nalgumas liturgias orientais, o pão consagrado é designado com o nome de “pérola” (margarida). E assim, nas Collectiones Canonum Copticae se diz: “Queira Deus que nenhuma das pérolas ou fragmentos consagrados se fixe nos dedos ou caia por terra!”.
Na tradição da Igreja siríaca, o pão eucarístico era comparado com o fogo do Espírito Santo. Havia uma viva consciência de fé na presença de Cristo, até mesmo nos mínimos fragmentos do pão eucarístico, como atesta Santo Efrém: “Jesus encheu o pão de Si mesmo e de Espírito e chamou-o o Seu Corpo vivo. Isto que agora vos dei, dizia Jesus, não o considereis pão, e tampouco piseis os seus fragmentos. O mínimo fragmento deste pão pode santificar milhões de homens e basta para dar a vida a todos quantos o comam”.

A extrema vigilância e cuidado da Igreja dos primeiros séculos, a fim de que se não perdesse nenhum fragmento do pão eucarístico era um fenômeno universalmente difundido: Roma (S. Hipólito em “Traditio apostolica”, 32), África do Norte (Tertuliano em De corona, 3,4), Gália (S. Caesarius Arelatensis, em sermo 78,2), Egito (Origenes, In Exodum hom. 13,3), Antioquia e Constantinopla (S. João Crisóstomo, em Ecloga quod non indige accedendum sit ad divina mysteria), Palestina (S. Jerónimo, em Ps. 147,14), Síria (Santo Efrem, In hebd. sanctum, s. 4,4).
Num tempo em que se administrava a Comunhão apenas na boca e se usava mesmo a bandeja da Comunhão, o Papa Pio XI ordenou que se publicasse a seguinte premente exortação: “Na administração do sacramento eucarístico, deve mostrar-se um particular zelo, a fim de que não se percam os fragmentos das hóstias consagradas, já que em cada um deles está presente o Corpo inteiro de Cristo. Por isso, tome-se o cuidado, para que os fragmentos se não separem facilmente da hóstia e não caiam por terra, onde - é horrível dizê-lo! - se poderão misturar com a porcaria e ser calcados pelos pés”.

Num momento de tão grande importância na vida da Igreja, como é a recepção sacramental do Corpo do Senhor, deve prestar-se um correspondente cuidado, vigilância e atenção. O Papa João Paulo II, falando sobre a recepção da Sagrada Comunhão, constatou “deploráveis faltas de respeito nos confrontos com as espécies eucarísticas, faltas cuja gravidade recai também sobre os pastores da Igreja que tenham sido menos vigilantes com o porte dos fiéis para com a Eucaristia”. Por isto, devem ter-se em conta as circunstâncias particulares e históricas que se relacionam com os comungantes, a fim de que nada aconteça que possa provocar um dano ao respeito para com este sacramento, como avisava São Tomás de Aquino.
Todo o sacramento possui o dúplice e inseparável aspecto: o culto da adoração Divina e a salvação do homem. A forma do rito deve, por isso, garantir, do modo mais seguro possível, o respeito e o caráter sagrado da Eucaristia.

Precisamente este aspecto da unidade entre a disposição interior e a sua manifestação no gesto exterior explicava com palavras tão impressionantes e cheias do fervor da fé o Beato Columba Marmion, na seguinte oração dirigida a Jesus eucarístico: “Senhor Jesus, por nosso amor, para nos atrairdes a Vós, para Vos tornardes nosso alimento, Vós escondeis-nos a Vossa majestade. Quanto mais Vós escondeis a Vossa divindade, tanto mais nós desejamos adorar-Vos, tanto mais desejamos pôr-nos de joelhos aos Vossos pés com reverência e amor”.
O Beato Columba Marmion explica a causa da veneração exterior das espécies eucarísticas a partir da oração da Igreja: “Senhor, dai-nos a graça de venerar os sagrados mistérios do Vosso Corpo e do Vosso Sangue”. Por que venerar? Porque Cristo é Deus, porque a realidade das espécies sagradas é uma realidade sagrada e divina. Aquele que Se esconde na Eucaristia é Aquele que é, com o Pai e o Espírito Santo, o Ser Infinito, o Onipotente: “Ó Cristo Jesus, realmente presente, prostro-me aos Vossos pés. Que Vos seja dada a adoração, no sacramento, que Vós quisestes deixar-nos na vigília da Vossa Paixão, como testemunho do excesso do Vosso amor!”

5 - Na Igreja antiga, os homens, antes de receber o pão consagrado, deviam lavar as palmas das mãos (40). Por outro lado, o fiel inclinava-se profundamente, recebendo o Corpo do Senhor com a boca, diretamente da palma da mão direita e não da mão esquerda (41). A palma da mão servia por assim dizer como patena ou corporal (especialmente para as mulheres). Assim se lê num sermão de São Cesário de Arles (470-542): “Todos os homens que desejem comungar, devem lavar as suas próprias mãos. E todas as mulheres devem trazer um pano de linho, sobre o qual recebem o Corpo de Cristo”.

Habitualmente, a palma da mão foi purificada, ou seja, lavada, depois da recepção do pão eucarístico, como até agora tem sido norma na Comunhão do clero, no rito bizantino.
A Igreja antiga vigiava, a fim de que a recepção do Corpo do Senhor na mão fosse acompanhada por um comportamento, mesmo exterior e de profunda adoração, como se pode constatar da seguinte homilia de Teodoro de Mopsuesto: “Cada um de nós se aproxima, pagando uma espécie de dívida com a adoração, fazendo assim uma profissão de fé em que está recebendo o Corpo do Rei. Tu, porém, deves ter recebido o Corpo de Cristo nas tuas próprias mãos, adorá-Lo com amor grande e sincero, fixá-Lo com os teus olhos, beijá-Lo!”
Nos velhos cânones da Igreja caldéia, mesmo o sacerdote celebrante era proibido de meter o pão eucarístico na sua própria boca com os dedos. Pelo contrário, devia tomar o Corpo do Senhor da palma da sua mão e, com esta, levá-lo diretamente à boca; como motivo, era indicado que se tratava, não de um alimento comum, mas de alimento celeste: “Ao sacerdote, ordena-se que receba a partícula do pão consagrado diretamente da palma da sua mão. Que lhe não seja permitido metê-la com a mão na boca, mas deve tomá-la com a boca, pois se trata de um alimento celeste”.

No rito caldeu e siro-malabarense, há uma particularidade que exprime o profundo respeito ao tratar o pão consagrado: antes que o sacerdote na liturgia eucarística toque com os seus dedos o Corpo do Senhor, são-lhe incensadas as mãos. O Cardeal J. Ratzinger tinha feito a seguinte observação: o fato de que o sacerdote tome, ele próprio, o Corpo do Senhor, não só o distingue do leigo, mas deve incitá-lo a tomar consciência de que se encontra diante do mistério tremendo e de agir na pessoa de Cristo.
O fato de que um homem mortal tomava o Corpo do Senhor diretamente nas suas mãos, exigia, para São João Crisóstomo, um comportamento de grande maturidade espiritual: “O sacerdote continuamente toca Deus com as suas mãos. Que pureza, que piedade se exige dele! Reflete agora um pouco, como deveriam ser essas mãos que tocam coisas tão santas!”
Na antiga Igreja siríaca, o rito da distribuição da Comunhão era comparado com a cena da purificação do profeta Isaías, por parte de um dos serafins. Num dos seus sermões, Santo Efrém deixa falar Cristo com estas expressões: “O carvão trazido santificou os lábios de Isaías. Fui Eu que, trazido agora a vós por meio do pão, vos santifiquei: As tenazes que o profeta viu e com que foi tomado o carvão do altar, eram a figura de Mim próprio, no grande sacramento. Isaías viu-Me a Mim, assim como vós Me vedes a Mim agora, estendendo a Minha mão direita e levando às vossas bocas o pão vivo. As tenazes são a Minha mão direita. Eu faço as vezes do serafim. O carvão é o Meu Corpo. Todos vós sois Isaías”.

Esta descrição permite concluir que na Igreja siríaca, no tempo de Santo Efrém, a Sagrada Comunhão era distribuída diretamente na boca. Isto mesmo se pode constatar também na liturgia dita de S. Tiago, que era ainda mais antiga do que a chamada de São João Crisóstomo.
Na liturgia de São Tiago, antes de distribuir aos fiéis a Sagrada Comunhão, o sacerdote recita esta oração: “Que o Senhor nos abençoe e nos torne dignos de tomar, com mãos imaculadas, o carvão aceso, metendo-o na boca dos fiéis”.
No rito siro-ocidental, o sacerdote, ao distribuir a Comunhão, recita esta fórmula: “O propiciatório e vivificante carvão do Corpo e do Sangue de Cristo, nosso Deus, é dado ao fiel pelo perdão das ofensas e pela remissão dos pecados”.

Existe um testemunho semelhante de São João Damasceno: “Recebamos o carvão Divino, para que sejamos inflamados e divinizados pela nossa participação no fogo divino. Isaías viu este carvão. Agora, o carvão não é simples madeira, mas madeira unida com o fogo. Do mesmo modo, o pão da Comunhão não é simples pão, mas pão unido com a Divindade”.
Com base na experiência feita nos primeiros séculos, ao crescimento orgânico da compreensão teológica do mistério eucarístico e ao conseqüente desenvolvimento ritual, o modo de distribuir a Comunhão na mão foi limitada, no fim da idade patrística, a um grupo qualificado, isto é, ao clero, como acontece até agora no caso dos ritos orientais. Aos leigos, começou-se portanto a distribuir o pão eucarístico (mergulhado no vinho consagrado, nos Ritos orientais) diretamente na boca. Na mão, distribui-se nos Ritos orientais apenas o pão não consagrado, o chamado “antidoron”. E assim se mostra, de modo evidente, a própria diferença entre pão eucarístico e pão simplesmente abençoado.

6 - Há alguns anos, o Cardeal Joseph Ratzinger fez a seguinte constatação preocupante, a respeito do momento da Comunhão em alguns lugares: “Nós já não subimos à grandeza do evento da Comunhão, mas arrastamos o dom do Senhor para baixo do ordinário da livre disposição, para a quotidianidade”.
Estas palavras do então cardeal Joseph Ratzinger são quase um eco das advertências dos Padres da Igreja, a respeito do momento da Comunhão, como muito bem se pode perceber, por exemplo, nas seguintes expressões de São João Crisóstomo, doutor eucarístico: “Pensas em quanta santidade é necessário que tu tenhas, pelo momento em que recebeste sinais ainda maiores do que aqueles que os Judeus receberam no Santo dos Santos? A habitar em ti, de fato, tu não tens os Querubins, mas o Senhor dos próprios Querubins; não tens, nem a arca, nem o maná, nem a tábua de pedra e tão pouco a vara de Aarão, mas o Corpo e o Sangue do Senhor, o Espírito em lugar da letra, tens um dom inenarrável. Pois bem, com quantos maiores sinais e mais veneráveis mistérios foste honrado, de tanto maior santidade és obrigado a prestar contas”.

O autêntico e restrito vínculo que une a idade antiga (patrística) com a Igreja atual, nesta matéria, é o cuidado reverente do Corpo do Senhor, mesmo nos mais pequenos fragmentos.
A Santa Sé, numa recente Instrução para as Igrejas orientais católicas, falando do modo de distribuir a Comunhão, e particularmente do uso que apenas os sacerdotes toquem o pão eucarístico, exprime um critério que é, em si mesmo, válido para a prática litúrgica de toda a Igreja: “Mesmo que isto exclua a valorização de outros critérios, embora legítimos, e implique a renúncia a algum comodismo, uma modificação do uso tradicional arrisca-se a comportar uma intrusão não orgânica a respeito do quadro espiritual que se tem mencionado”.
Na medida em que se constata uma cultura que se afastou da fé e que já não conhece Aquele diante do qual se ajoelhar, o gesto litúrgico do ajoelhar-se “é o gesto justo, ou antes, o interiormente necessário” , como observava o Cardeal Joseph Ratzinger.
O grande Papa João Paulo II insistia no facto de que, tendo em vista a cultura anti-sacra do tempo moderno, a Igreja de hoje deverá sentir um especial dever a respeito da sacralidade da Eucaristia: “Importa recordá-lo sempre, e talvez sobretudo no nosso tempo, no qual observamos uma tendência para apagar a distinção entre “sagrado” e “profano”, dada a geral e difundida tendência (pelo menos em certos lugares) para a dessacralização de todas as coisas. Perante uma tal realidade, a Igreja tem o particular dever de assegurar e corroborar o “sagrado” da Eucaristia. Na nossa sociedade pluralística, e muitas vezes mesmo deliberadamente secularizada, a viva fé da comunidade cristã garante a este “sacrum” o direito de cidadania”.

7 - A Igreja atesta com o próprio rito a sua fé em Cristo e adora-O a Ele, que está presente no Mistério eucarístico e é dado como alimento aos fiéis (58). O modo de tratar o pão eucarístico reveste-se de um valor altamente pedagógico. O rito deve ser um testemunho fiel daquilo que a Igreja acredita. O rito deve ser o pedagogo ao serviço da fé (do dogma). O gesto litúrgico, de um modo eminente o gesto de receber o Corpo Eucarístico do Senhor, de receber por conseguinte o “Santo dos Santos” , impõe ao corpo e à alma atitudes conformes com as exigências do espírito.
O servo de Deus Cardeal John Henry Newman ensinava, neste sentido: “Acreditar e não mostrar algum sinal de reverência, um culto com familiaridade, segundo o seu próprio gosto, é coisa anômala e um fenômeno desconhecido mesmo pelas falsas religiões, não falando de verdadeiras religiões. Culto, formas de culto - como o ajoelhar-se, tirar os sapatos, fazer silêncio e coisas semelhantes - são considerados como necessários para poder aproximar-se devidamente de Deus”. São João Crisóstomo reprovava os sacerdotes e diáconos que distribuiam a Sagrada Comunhão com respeito humano e sem o devido cuidado: “Mesmo que alguém, por ignorância, se aproxime da Comunhão, impedi-o, não temais. Teme Deus e não o homem. Se de facto temes o homem, este mesmo escarnecerá de ti; se, pelo contrário, temes a Deus, serás respeitado, mesmo pelos homens. Estarei disposto a morrer, antes que dar o sangue do Senhor a uma pessoa indigna; derramaria o meu sangue, antes que dar o venerado Sangue do Senhor de um modo inadequado”.

São Francisco de Assis advertiu os clérigos, convidando-os a uma particular vigilância e reverência no distribuir a Sagrada Comunhão: “Há alguns... que a (Eucaristia) distribuem de um modo desatinado... Não nos movem à compaixão todas estas profanações, pensando que o próprio Senhor, tão bom, Se abandona nas nossas mãos e todos os dias O temos, e recebemos com a nossa boca? Teremos porventura esquecido que um dia seremos nós que iremos cair nas Suas mãos?”.
Não se deve tão pouco esquecer a sempre atual advertência do Catecismo Romano, que traduz no fundo o ensinamento do Apóstolo Paulo em 1 Cor 11, 27-30: “Entre todos os sagrados Mistérios... não há nenhum que possa ser comparado com o Santíssimo Sacramento da Eucaristia: e, por conseguinte, não há ofensa que faça temer um pior castigo de Deus que o dos fiéis que tratam não santa nem devotamente um Mistério que é todo santidade, ou antes, que contém em si mesmo o próprio Autor.