A FESTA DE TODAS AS FESTAS

A festa de todas as festas, as bodas de todas as bodas. 

 
O MARAVILHOSO CONSOLO DA DOUTRINA CRISTÃ:

Quando as trevas teimam em obscurecer nosso pobre coração, temos de nos apegar ao que restou de tudo: a fé. Sem a fé, não somos capazes de sair em busca da luz, da esperança, do maravilhoso consolo que nos traz a doutrina cristã. A esperança de que, um dia, acontecerá a reunião dos eleitos do Senhor e haverá o reencontro final – a Festa de todas as festas, a Boda de todas as bodas, a epifania suprema de Deus com todos e todos em Deus.
 
É este o grande mistério que anima nossa alma pequenina, enquanto vivemos no mundo, na carne, rodeados de matéria e das necessidades do nosso corpo mortal, sujeitos a dar o último adeus àqueles que amamos. É a hora dolorosa,  o dia sem fim dos abraços soluçantes, da agonia e da tristeza da Cruz. No entanto, pela luz de Cristo, juntamos  forças para ficar  de pé e recebermos as condolências que a vida nos reserva. 
 
Guardo comigo uma carta de amor jamais escrita, porque nunca foi preciso escrevê-la: o amor foi vivido em toda a sua beleza e plenitude. O amor de dois corações entrelaçados, que nasceram um para o outro e compreenderam isso tão logo se conheceram. Corações de mãos dadas, selados pela força suprema, aquela que une corpos e almas, no convívio mais belo, depois do sacramento santo. 
 
Tecer juntos o tecido delicado da vida diária, seus humores, suas sutilezas, seus problemas – a trama constante de tessituras finíssimas, que precisam ser tocadas com extremo cuidado. Uma vida inteira juntos e, de repente, o  corte brusco da separação, o grande adeus, o  mistério avassalador da vida e da morte – a finitude humana que nos ronda a cada momento. Contudo, na hora dolorosa, conservar o espírito sereno, na consciência de que, até o último contato, o coração doou-se completamente, as mãos  acariciaram sem cansaço e os olhos guardaram nas retinas o retrato do amor. 
 
Ah, o rosto amado! A face mil vezes beijada, os abraços trocados com a alegria de cônjuges amorosos e cúmplices, vivendo a sinfonia regida pelos céus. Mas a vida não é eterna música, nem dança para sempre e, um dia, o concerto termina. Pode acontecer algum episódio que obrigue os músicos a parar de tocar. Então, tudo cessa, cessa a musa do espetáculo chamado “vida”.  
 
Na hora do último adeus, cercar-se do mesmo amor com que se amou a vida toda, com a mesma fé e a mesma esperança, a crença nos valores cristãos, a certeza da vida eterna, do Reino que não é deste mundo, a pátria celeste, as moradas que esperam a cada um de nós, nos braços do Pai  amado. Na hora dolorosa, o coração deve estar em paz, com a sensação plena de ter se doado totalmente ao outro, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Este é o sacramento do amor. 
 
O grande mistério vai se abatendo sobre nós, que estamos na fila da vida. Às vezes, inesperadamente; às vezes, dando tempo para que nos preparemos para ele. No entanto, quão dura é esta “preparação”. Ninguém está de fato preparado, pois é sempre uma dor inenarrável e um grande assombro.   
 
O grande mistério, a grande dor. Tantos de nós já a sentimos. Quantas lágrimas derramadas ao longo da vida!... Quantas vezes dissemos os nomes dos nossos amados que partiram, venerando-os com devoção. Sentimos amor, respeito, carinho, saudades. Muita saudade, aquela que devora a alma e estraçalha o coração. Saudade de ouvir a voz, de ver o jeito de falar, de sorrir, de ser, e compreender que tudo se encerrou numa viagem eterna. 
 
O grande mistério, aos poucos, vai se suavizando e acabamos por aceitar o seu domínio, porque Deus faz parte dele. E diante do Pai nos curvamos, agradecidos pela riqueza dos dons recebidos, pela beleza do amor, da partilha e do perdão.  Somente o tempo – o infinito tempo-rei – pode guardar consigo a força das lembranças e marcar para sempre a memória da saudade.  
 

Marisa Bueloni