DIGNIDADE SACERDOTAL - O respeito pelos consagrados

Abaixo segue um texto para nossa meditação, tirado do livro de Santa Catarina de Sena, onde Deus lhe fala sobre a dignidade sacerdotal e o respeito que devemos ter por eles. Ai de quem levantar uma calúnia contra um sacerdote. Que o texto sirva para nos imbuirmos da vontade de rezar pelos padres que exercem indigna e sacrílegamente o seu minsitério.

28.3 - O respeito devido aos sacerdotes

Filha querida, ao manisfestar-te a grande virtude daqueles pastores, quero colocar em evidência a dignidade dos meus ministros. Pelo pecado de Adão, as portas da eternidade fecharam-se, mas o meu Filho abriu-as com a chave do seu sangue. Ao sofrer a paixão e morte, ele destruiu a morte e vos lavou no sangue. Sim, foram seu sangue e sua morte que, em virtude da união da natureza divina com a humana, eram acesso ao céu. E a quem deixou Cristo tal chave? Ao Apóstolo Pedro e a seus sucessores, os que vieram e que virão depois dele até o dia do juízo final.

Todos possuem a mesma autoridade de Pedro; nenhum pecado a diminui, do mesmo modo que não destrói a santidade do sangue de Cristo e dos sacramentos. Já disse (28.1) que o sol eucarístico não tem manchas e que o mal cometido por quem o administra ou recebe não apaga sua luz. Não, o pecado não danifica os sacramentos da santa Igreja, não lhes diminui a força; prejudica a graça e aumenta a culpa somente em quem os ministra ou recebe indignamente.

28.3.1 - Visão sobre o papa

Na terra, quem possui a chave do sangue é o Cristo-na-terra*. Certa vez eu te manifestei essa verdade numa visão, para indicar o grande respeito que os leigos devem ter pelos ministros, bons ou maus que eles sejam, e quanto me desagrada que alguém os ofenda. Pus diante de ti a hierarquia da Igreja sob a figura de uma despensa contendo o sangue de meu Filho. No sangue estava a virtude de todos os sacramentos e a vida dos fiéis.

À porta daquela despensa, vias o Cristo-na-terra, encarregado de distribuir o sangue e fazer-se ajudar por outros no serviço de toda a santa Igreja. Quem ele escolhia e ungia, logo se tornava ministro. Dele procedia toda a ordem clerical; ele dava a cada um sua função no ministério do glorioso sangue. E como dispunha dos seus auxiliares, possuía a força de corrigi-los nos seus defeitos.

De fato, é assim que eu quero que aconteça. Pela dignidade e autoridade confiada a meus ministros, retirei-os de qualquer sujeição aos poderes civis. A lei civil não tem poder legal para puni-los; somente o possui aquele que foi posto como senhor e ministro da lei divina.

(*Com esta expressão \\\\\\\\\\\\\\\"Cristo-na-terra\\\\\\\\\\\\\\\", Catarina indica a pessoa do papa. Durante o ditado do DIÁLOGO ocupava a sede romana Urbano VI, homem íntegro, mas de gênio violento. Catarina lhe escreveu bem 9 cartas- nota de roda-pé-)



28.3.2 - Não perseguir os sacerdotes

Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: \\\\\\\\\\\\\\\"Não toqueis nos meus cristos\\\\\\\\\\\\\\\"(Sl 105, 15). Quem os punir cairá na maior infelicidade. Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a mim.

Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos,procurais meus ministros; não por eles mesmos, mas pelo poder que lhes dei. Se recusais fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. A reverência é dada a mim e a meu Filho encarnado, que somos uma só coisa pela união da natureza divina com a humana. Mas também o desrespeito.

Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei, e por isso mesmo não podem ser ofendidos. Quem os ofende, a mim ofende. Disto a proibição: \\\\\\\\\\\\\\\"Não quero que mãos humanas toquem meus cristos!\\\\\\\\\\\\\\\" Nem poderá alguém escusar-se, dizendo: \\\\\\\\\\\\\\\"Eu não ofendo a santa Igreja, nem me revolto contra ela; apenas sou contra os defeitos dos maus pastores!\\\\\\\\\\\\\\\" Tal pessoa mente sobre a própria cabeça. O egoísmo a cegou e não vê. Aliás, vê; mas finge não enxergar, para abafar a voz da consciência.

Ela compreende muito bem que está perseguindo o sangue do meu Filho e não os pastores. Nestas coisas, injúria ou ato de reverência dirigem-se a mim. Qualquer injúria: caçoadas, traições, afrontas. Já disse e repito: não quero que meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros. No entanto, homens ímpios continuam a revelar a irreverência que têm pelo sangue de Cristo, o pouco apreço que possuem pelo amado tesouro que deixei para a vida e santificação de suas almas. Não poderíeis ter recebido maior presente que o todo-Deus e todo-Homem como alimento. Cada vez que o conceito relativo aos meus ministros não coloca em mim sua principal justificativa, torna-se inconsistente e a pessoa neles vê somente muitos defeitos e pecados. De tais defeitos falarei em outro lugar (28.6).

Mas quando o respeito se fundamenta em mim, jamais desaparece, mesmo diante de defeitos nos ministros; como disse (28.2.1), a grandeza da eucaristia não é diminuída por causa dos pecados. A veneração pelos sacerdotes não pode cessar; se tal coisa acontecer, sinto-me ofendido.

28.3.3 - O grande pecado dos perseguidores

São muitas as razões que fazem desta ofensa a mais grave. Vou lembrar apenas três. A primeira, é porque os perseguidores agem contra mim em tudo o que fazem em oposição aos meus ministros. A segunda, é porque desobedecem àquela ordem pela qual proibi que meus sacerdotes fossem tocados. Ao persegui-los, os homens desprezam a riqueza do sangue de Cristo recebida no batismo. Desrespeitando o sangue de Jesus e perseguindo os ministros, rebelam-se e tornam-se membros apodrecidos, separados da hierarquia eclesiástica.

Caso venham a morrer em tal revolta e desrespeito, irão para a condenação eterna Se reconhecerem a própria culpa na última hora, humilhando-se e desejando a reconciliação, mesmo que não consigam fazer exteriormente, serão perdoados. Mas não devem esperar pelo momento da morte, pois será incerto o próprio arrependimento. A terceira razão pela qual este pecado é o mais grave, está no seguinte: é uma falta maldosa e deliberada. Os perseguidores têm consciência de que o não devem cometer, sabem que vão pecar; cometem um ato de orgulho, em que não entram atrações sensíveis, muito pelo contrário. Tais pecadores arriscam a alma e o corpo: a alma, privando-se da graça, muitas vezes em meio a remorsos da consciência; o corpo, gastando seus bens a serviço do diabo e indo morrer como animais.

Não, este pecado cometido contra mim não possui características de satisfação ou prazer pessoais; acompanham-no apenas os desvarios e a maldade do orgulho! Um orgulho que nasce do egoísmo e daquele medo próprio de Pilatos, quando matou meu Filho por temor de perder o cargo. É o que sempre fizeram e fazem os perseguidores. Os demais pecados procedem de uma certa simploriedade, de ignorância ou de satisfação pessoal desordenada, de certo prazer ou de utilidade presentes no ato mau.

Naqueles pecados, o homem prejudica a si mesmo, ofende a mim e ao próximo. Ofende-me por não me glorificar; ao próximo, por não o amar. Na realidade, não se ergue frontalmente contra mim; ergue-se contra si mesmo, e isso me desagrada. Já no pecado de perseguição contra a santa Igreja, sou ofendido diretamente. Os outros vícios possuem uma justificativa, uma razão intermediária. Já afirmei que todo pecado e virtude são feitos no próximo (2.6). O pecado é ausência de amor por mim e pelos homens; a virtude é amor caritativo. Neste pecado, os maus perseguem o próprio sangue de Cristo ao se investirem contra meus ministros, e privam-se de sua riqueza espiritual.

Entre todos os homens, os sacerdotes são meus eleitos, meus consagrados, são os distribuidores do sangue do meu Filho, em quem vossa natureza está unida à minha. Quando consagram a eucaristia, os ministros o fazem na pessoa de Jesus. Como vês, realmente este pecado é dirigido conra meu Filho; por conseguinte, contra mim, pois somos um. É uma falta gravíssima. Nã se dirige aos ministros, dirige-se a mim. Também o respeito demonstrado para com eles, considero-os como se fossem para mim e meu Filho. Por tal motivo te dizia que, se colocasses de um lado todos os demais pecados e este, sozinho, do outro, o último ser-me-ia mais ofensivo.

Falei-te de tudo isso para dar-te motivo de maior preocupação, seja por causa do pecado com que me ofendem, seja pela condenação eterna dos infelizes perseguidores. Assim, o teu sofrimento e o dos meus servidores dissolverão a grande treva que desceu sobre estes membros apodrecidos, atualmente separados da hierarquia da santa Igreja. Infelizmente quase não acho pessoas que aceitem angustiar-se por causa das perseguições em curso contra o precioso sangue. Mais facilmente encontro que atire continuamente flechas contra mim; são pessoas cegas ? procura de fama. Consideram honroso o que é infame, infame o que é honroso; recusam humilhar-se diante do próprio superior*.

Com tais defeitos, muitos ousam perseguir o sangue de Cristo, ferem-me profundamente. Quanto podem, tanto se esforçam por prejudicar-me. Na realidade, não me danificam. Sou como a pedra que, ao ser batida, devolve o golpe a que o deu. Mesmo os pecados mais vergonhosos não me causam males; são flechas envenenadas que a eles retornam em forma de culpa. Durante esta vida, privam-se da graça, e no dia da morte, não havendo arrependimento, irão para a condenação.

Vivem distantes de mim, atrelados ao demônio com quem se coligaram. Quando o homem perde a graça, amarra-se ao pecado. É um laço feito de ódio pelo bem e de amor ao mal; uma corrente com que espontaneamente a alma se entrega ao diabo, pois isso ninguém a pode obrigar. (*A autora pensa na situação de revolta das cidades italianas contra o papa, naquele ano de 1378 - nota de roda-pé).

Este mesmo laço une os perseguidores da Igreja entre si e com o malígno; de comum acordo, aqueles desempenham a função do demônio. Esforça-se este por perverter os homens, induzindo-os ao pecado mortal; deseja que as almas tenham em si a maldade em que ele vive. Pois bem, fazem a mesma coisa os inimigos da Igreja; quais membros do diabo, procuram levar os filhos da Igreja ? revolta contra a hierarquia, afastam-nos da caridade, acorrentam-nos ao pecado, privam-nos dos benefícios da paixão. O vínculo que une tais perseguidores nasce do orgulho e da vanglória; com medo de perder os bens materiais, acabam perdendo a graça. De possuidores da dignidade de Cristo, decaem para a maior confusão interior possível. São pactos que trazem o selo das trevas. Desconhecendo os males e pecados em que vivem, neles fazem cair outros; inconscientes dos seus pecados, não se corrigem. Como cegos, caminham vangloriando-se para a destruição da própria alma e do próprio corpo.

Filha querida, chora profundamente diante dessa cegueira e miséria. São homens que, como tu, foram lavados no sangue; que se nutriram no sangue; que cresceram no seio da santa Igreja. Agora, revoltados, abandonaram-na sob pretexto de corrigir os defeitos dos meus ministros. Eu já proibira tal comportamento, dizendo: \\\\\\\\\\\\\\\"Não quero que meus ministros sejam ofendidos\\\\\\\\\\\\\\\". Autêntico terror deveria apossar-se de ti e dos demais servidores meus, quando ouvis falar de semelhantes alianças. Tua linguagem é insuficiente para referir quanto as abomino. O pior é que tais pessoas procuram encobrir seus defeitos sob o manto dos defeitos dos meus ministros Não se lembram de que não existe capa que os esconda diante de mim. Na opinião pública, bem que passam desapercebidos; não em minha presença. Conheço os acontecimentos desta vida e muito mais. Pensei em todos vós e vos amei antes de vosso nascimento.

Um dos motivos pelos quais esses infelizes não se corrigem é a falta de fé. Julgam que não os vejo. Se acreditassem realmente que sei dos seus defeitos, se acreditassem que todo pecado é punido e todo bem recompensado, como expliquei em outro lugar (14.10), haveriam de corrigir-se e pedir humildemente o perdão. Nesse caso, pelo sangue de Cristo eu os perdoaria. Mas vivem na obstinação, reprovados por tantos males. Arruinaram-se, vivem nas trevas, perseguindo cegamente a Cristo.
Em suma, ninguém deveria perseguir meus sacerdotes por causa de defeitos seus!

(Texto retirado do livro "DIÁLOGO"- Santa Catarina de Sena - págs.
237 a 243/Paulus)
(Gentileza maria Luiza)