NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - As almas dos justos conhecem todos os justos pelo nome

“Aprouve a Deus santificar e salvar os homens não singularmente , sem nenhuma conexão uns com os outros, mas constituí-los num povo , que O conhecesse na verdade e santamente O servisse.”(Vaticano II, “Lumen Gentium”9).

Marcados, assinalados, salvos! “Da tribo de Judá, 12.000, da tribo de Ruben, 12.000, da tribo... de Benjamim, 12.000... + uma multidão tão grande que ninguém podia contar.” (Ap. 7,5-9). Será possível que, no Céu, os da tribo de Benjamim não conheçam os da tribo de Ruben, de Judá e vice-versa? Será que a “multidão que ninguém podia contar” vai ficar no anonimato?

A Igreja Católica celebra dia 30 de Junho a solenidade dos Santos Apóstolos São Pedro e São Paulo “unidos pela coroa do martírio”, diz o Prefácio da Missa de hoje. Chegados ao Céu eles se desuniram?

“...numa cidade de Oeste, onde ensinávamos teologia, soubemos que um pregador dissera, da cátedra da verdade, que os membros da mesma família não se reconheceriam no Céu. Entre os seus ouvintes estava um ancião que, ao ouvir isto, se afligiu muito, porque tinha perdido a sua virtuosa esposa, que sempre esperara voltar a ver junto de Deus.”

A falsa afirmação desse pregador, levou o Padre Blot, SJ, a dedicar-se profundamente a este estudo, levantando argumentos da Sagrada Escritura, dos Padres e do Magistério da Igreja, que provam, sem apelação, que “NO CÉU NOS RECONHECEREMOS”. E publicou seus estudos no opúsculo que leva, exatamente, esse lindo nome: “No Céu nos reconheceremos!”.

Bem que eu gostaria de digitar todo o livro, hoje esgotado e muito raro. Não sendo possível, apresentarei, aos poucos, seus textos e argumentos mais importantes, dando preferência aos textos dos Santos Padres e outras autoridades, do que a argumentação do autor. Sem seguir exatamente a ordem do livro, começo com Santo Agostinho:

“Conhecer-nos-emos todos no Céu. Pensais vós que me conhecereis, por me haverdes conhecido na terra, mas não conhecereis meu pai, porque nunca o vistes? Repito-vos, conhecereis todos os santos. Eles se conhecerão, não porque vejam a face uns dos outros (antes da Ressurreição da Carne), mas verão como os profetas costumam ver na terra; ou de um modo bem mais excelente. Verão divinamente, por isso que estão cheios de Deus.”

“E vós, S.Paulo e Santo Estevão, o perseguidor e a vítima, não reinais juntamente com Jesus Cristo? Aí, vede-vos ambos mutuamente, ouvis o nosso discurso; orai ambos aí, orai ambos por nós. Aquele que vos coroou a ambos, vos ouvirá também a ambos.” (Sermão 243, capítulo VI e sermão 316, capítulo V). O mesmo não se dará com Santa Maria Goretti, cujo centenário estamos festejando, reinando no Céu juntamente com seu assassino Alessandro, perdoado por ela e por Deus? E, mais ainda, estranha, mas verdadeira convivência, reunida Goretti com milhares de outras Virgens Mártires, especialmente, Inês e Cecília, e com tantas outra pecadoras arrependidas, que, tal como a Madalena, “muito foi perdoado porque muito amou”?

“As almas dos justos conhecem todos os justos, até mesmo o seu nome, a sua raça e seus merecimentos, como se tivessem vivido sempre com eles. Conhecem também todos os maus, sabendo por que falta cada um está no Inferno. Os maus conhecem os maus, e ainda conhecem os justos que vêem, a até sabem seus nomes, como o rico avarento sabia o nome de Abraão e de Lázaro.” (cf. Lc 16,20-31). (Honorius d’Autun, Elucidarium, lib. III, n° 7 e 8).

Não está escrito no Salmo 22, “preparas uma mesa para mim (no Céu) bem à vista do inimigo”? Se até o inimigo nos conhece, seremos desconhecidos para os amigos?

No meu artigo “Creio na Comunhão dos Santos”, eu escrevi:

Devem conhecer bem a parábola do pobre Lázaro e do rico epulão, (Lc 16,20-31) contada por Jesus. Jesus fala, precisamente, de uma comunicação existente entre o Céu (ainda era o "Seio de Abraão"), a terra e o próprio Inferno: O rico estando no Inferno, no meio de seus tormentos, "via" Lázaro "no seio de Abraão" e "podia" se relacionar, dialogar com o mesmo: Jesus fala mesmo de um intenso diálogo. E o rico pedia ao "pai Abraão" que Lázaro fosse comunicar aos seus irmãos que existe o Inferno mesmo; ora, a resposta foi negativa, não porque Lázaro não pudesse, de fato, se comunicar com os irmãos do condenado, e sim, porque seria, no caso, totalmente inútil: "Se não acreditam em Moisés, nem que um morto ressuscitasse eles acreditariam". Abraão diz também que é impossível transpor o abismo entre o Céu e o Inferno, mas, saber um o que passa no outro lado e até dialogar, é perfeitamente possível.

Disseram-vos que os santos (no Céu) amariam só a Deus. Ouvi a resposta do abade Marcos no seu belo livro sobre a felicidade dos santos:

“A pátria celeste é-nos incessantemente apresentada no Evangelho sob o símbolo dum reino, duma sociedade, duma família. Mas uma sociedade, um Estado, uma família não é simplesmente uma aglomeração de individualidades estranhas umas às outras; mas sim, uma reunião de seres inteligentes e racionais, obedecendo a leis comuns e obrigatórias para todos, que fazem um só e mesmo corpo da harmônica reunião destes diversos membros.”

“Ora, entre todas estas leis, há uma que é a salvaguarda, e como que o laço de todas as outras; é a lei da solidariedade social ou fraternal, que ordena a todos que se dediquem por um, e que cad um se dedique por todos, à proporção das forças e necessidades de cada membro. É, por outros termos, a lei da caridade, a lei do amor.”

“No Céu nos amaremos como amam os filhos do mesmo pai, como irmãos queridos e ternas irmãs: amar-nos-emos, como se amam dois amigos que só se conhecem desde ontem, e cujos corações, apenas se encontraram, se compreenderam e encadearam um ao outro, por uma simpatia que sentem ser indestrutível e eterna.” (...)

“Todos somos filhos de Deus, e ele mesmo quis que o chamássemos de nosso Pai (Mt 6,9). Mas a condição da paternidade no Céu será a mesma que na terra, exceto que possuirá, no mais alto grau de perfeição, os caracteres que a distinguem neste mundo. Ora, qual é nesta vida a paternidade modelo? Por que sinal reconheceremos nós que uma paternidade é verdadeiramente feliz?”

“Feliz paternidade, é o estado de um pai cercado de numerosos filhos que rivalizam em cuidados e ternura para com ele. Mas isto seria metade da sua felicidade, ou antes toda a sua felicidade se encontraria envenenada e destruída, se não reinasse uma verdadeira união entre todos os seus filhos.” (Marc, Le Ciel).

“Todos os bem-aventurados se conhecerão mutuamente por seus nomes, como nos afirma o Evangelho ( Mt 18, 1-9). Pedro viu Moisés e Elias que nunca tinha visto, os quais conheceu perfeitamente, tendo o primeiro um “corpo” transparente como o ar, e o segundo seu próprio corpo como quando foi arrebatado num carro de fogo.”

“Vedes, pois, muito bem que todos nos reconheceremos mutuamente na eterna felicidade, visto que nesta pequena amostra que Nosso Senhor se dignou apresentar sobre a montanha do Tabor a seus apóstolos, quis que estes conhecessem Moisés e Elias que nunca tinham visto.”

“A vista disto, que contentamento o nosso, vendo aqueles que tivemos extremosamente amado nesta vida! Sim, conheceremos mesmos os novos cristãos que se converteram agora à nossa fé, nas Índias, no Japão e nos antípodas; as santas amizades, da mesma forma que tiverem sido começadas por Deus nesta vida, se continuarão na eterna. Amaremos pessoas particulares, mas estas amizades não formarão parcialidades, porque todas as nossas amizades tomarão a sua origem no amor de Deus, que, conduzindo-as todas, fará com que amemos a cada um dos bem-aventurados com o puro amor com que somos amados por sua divina Bondade.”



“Ó Deus! Que consolações receberemos na celeste conversação que tivermos uns com outros!”

“Na bem-aventurança, os nossos bons anjos nos darão uma consolação muito maior do que se pode dizer ou ainda imaginar, quando nos fizerem conhecer e nos representarem mui amorosamente o cuidado que tiveram da nossa salvação enquanto estivemos na terra, lembrando-nos as santas inspirações que nos ofereceram como um leite sagrado que iam tirar dos peitos da divina Bondade para nos atrair à indagação dessas divinas suavidades, de que então estivermos gozando.”

“Não vos recordais, nos dirão, duma tal inspiração que vos sugeri em tal tempo, lendo um tal livro, ouvindo um tal sermão, ou fitando tal imagem, inspiração que vos incitou a converter-vos a Nosso Senhor, e que foi o motivo da vossa predestinação?”

“Ó meu Deus! E não se derreterão nossos corações num indizível contentamento?”

(São Francisco de Sales, sermão sobre a Transfiguração, no 2° domingo da Quaresma). (p.58)

No Céu Nos Reconheceremos


“IGREJA é comunhão, Igreja é comunicação, Igreja é participação. Comunhão recíproca da Igreja do Céu, da Igreja da terra e da Igreja do Purgatório e de cada um de seus membros entre si.
A palavra comunhão significa “comum-união”. E, inversamente, ser excluído da Igreja é a gravíssima pena ou castigo da excomunhão = ex-comunhão, “fora da comunhão, fora da união”.

O Catecismo da Igreja Católica define o Céu (imagine!) como a comunhão mútua entre os membros de Cristo: “O Céu é a comunidade bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados a Ele (Cristo)” (1026). – “Os eleitos vivem nEle, mas lá conservam – ou melhor, lá encontram – a sua verdadeira identidade, o seu próprio nome.” (1025). “...desfrutar no Reino dos Céus na companhia dos justos e dos amigos de Deus...” (1028). – “Na glória do Céu, os bem-aventurados continuam a cumprir com alegria a vontade de Deus em relação aos outros homens e à criação inteira.” (1029). “Pois todos os que são de Cristo, tendo o seu Espírito, congregam-se (unem-se) numa só Igreja (no Céu, na terra e no Purgatório) e nele estão unidos entre si.” (954). Aliás, o próprio significado da palavra Igreja é “união”, “congregação”.

“Creio na comunhão dos santos”: dizer que uma mãe não reconhece o filho, um filho não reconhece o pai no Céu é atentar contra o dogma, o artigo de fé da "Comunhão dos Santos" é fazer-se herege por conta própria, é SAIR DA IGREJA!!!

Sem união sem comunicação nada existe, a começar do próprio Deus “comunhão da Trindade”. O diabo, não existe o seu reino se “satanás está contra satanás” (Mt 12,26). NENHUM reino pode subsistir sem união (Mt 12,26).

Não existe animal, vegetal, ou mineral, que são constituídos por partículas – átomo e moléculas que, dissociados, não deixem de existir como animal, como vegetal, como mineral.

Existiria a terra e o próprio universo, sem essa conexão?
Mas... dirá o benévolo leitor, conexão não é conhecimento, não é “reconhecer” o outro... Não é? Pois até nisso reside certo “reconhecimento”: um átomo não se une a outro átomo para formar a molécula, se não o “reconhecer” compatível para tanto. E, no “macrocosmo” tente o leitor usar uma “extensão” elétrica juntando dois “plug” machos!
Ah, mas seres inanimados não têm “consciência” desse fato, isso é conosco, que somos racionais! Pois não, mas o Senhor Deus, para nos instruir, diz que até um irracional, um BURRO conhece a quem o alimenta, “o boi conhece seu possuidor e o asno, o estábulo de seu dono, mas Israel não conhece nada, e meu povo não tem entendimento!” (Is 1, 2-3).

O que é a morte senão a de-composição , a dissociação, a separação dos elementos de um corpo vivo, antecedida pela separação da alma e do corpo? NO CÉU NÃO ENTRA A MORTE, NÃO ENTRA A SEPARAÇÃO!!!
E o prezado leitor não estaria lendo este irrelevante texto se não houvesse união dos pigmentos da tinta da letra impressa ou dos elétrons da letra digitada!
Dito isto, voltemos ao nosso livrinho, “No Céu nos reconheceremos”:


E vamos começar com uma linda oração que, impressa no livro, participa do seu “imprimatur”:


ORAÇÃO A NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

“Divino Jesus, que pusestes em vosso Coração todas as nossas legítimas afeições para abençoá-las e santificá-las,

e Vos dignastes gozar das alegrias da piedade filial e mesmo dar aos homens o doce nome de amigo: Onde estão agora, Senhor, estes meus amigos e parentes? Estão no Céu junto de Vós e de vossa Mãe muito amada, a quem reconheceis, como Ela vos reconhece? Ah! Quanto desejo, eu também, reconhecer minha mãe na glória celeste e ser por ela reconhecido, tornar a vê-la com meu pai e meus irmãos, e tornar a ver juntamente todos os meus parentes e amigos!

Ó Deus de amor, Deus do Tabernáculo e da Santa Mesa, cujo corpo nos reúne num mesmo banquete neste mundo e guarda as nossas almas para a vida eterna, guardai, guardai também todos os membros da minha alma, todos os membros do meu coração, isto é, todas as pessoas que amo; guardai-as para a vida, guardai-as para a eternidade, e fazei que nos encontremos todos no banquete do Céu. Fazei sobretudo que aí encontre a alma que me era tão querida. Que ela e eu nos reconheçamos, que eu saiba tudo o que ela faz em segredo por mim e que lho agradeça eternamente na Pátria dos bem-aventurados.

Assim seja!”

“Se lá no assento etéreo onde subiste

Memória desta vida se consente

Não te esqueças daquele amor ardente,

Que já nos olhos meus tão puro viste.”

“E se vires que pode merecer-te

Alguma coisa a dor que me ficou

Da mágoa sem remédio de perder-te,

Roga a Deus que teus anos encurtou

Que tão cedo daqui me leve a ver-te

Quão cedo dos meus olhos te levou.”

(Camões)

Prosseguindo

“As almas dos justos conhecem todos os justos, até mesmo o seu nome, a sua raça e seus merecimentos, como se tivessem vivido sempre com eles. Conhecem também todos os maus, sabendo por que falta cada um deles está no Inferno.

“Os maus conhecem os maus, e ainda conhecem os justos que vêem, a até sabem seus nomes, como o rico avarento sabia os nomes de Abraão e de Lázaro.

“Os justos oram por aqueles que amaram no Senhor ou que os invocam.” (Honorius d’Autan, Elucidarium, lib. III, n° 7 e 8).

“Os santos vêem-se reciprocamente, assim o pede a unidade do reino e da cidade em que vivem na companhia do próprio Deus. Revelam espontaneamente uns aos outros os seus pensamentos e as suas afeições, como pessoas da mesma casa que estão unidas por um sincero amor.”

“Entre os seus concidadãos celestiais, conhecem aqueles mesmos que não conheceram neste mundo, e o conhecimento das belas ações leva-os a outro conhecimento mais pleno daqueles que as praticaram.” (Berti, De Theologicis disciplinis, lib III c. XIII, n°2.

Perdestes um irmão ou uma irmã? Consolai-vos como Santo Ambrósio se consolava a si mesmo: “Ó meu irmão, dizia ele, visto que me precedestes aí, preparai-me um lugar nessa habitação comum, que daqui por diante será para mim a mais desejada. E assim como neste mundo tudo foi comum entre nós, também no Céu desconheceremos a lei das partilhas.

Não façais esperar por muito tempo, eu vos suplico, aquele que experimenta tão vivo desejo de se vos reunir.

Esperai aquele que avança, auxiliai aquele que se apressa e, se vos parece que ainda tardo muito, fazei-me ir com mais ligeireza.

Nunca estivemos na terra separados por muito tempo; mas éreis vós que costumáveis visitar-me. Agora, visto que o não podeis fazer, pertence-me ir para junto de vós.

Ó meu irmão, que consolação me resta, a não ser esta esperança de nos reunirmos o mais breve possível?

Sim, consola-me a esperança de que a separação que se efetuou entre nós pela vossa partida, não será de longa duração, e que por vossas súplicas obtereis a graça de atrair a vós com mais brevidade aquele que vos chora tão vivamente.” ( S. Ambrósio, De excessu fratris sui, lib. I nn. 78-79).-pg 74 do livro.

PS. Devo o empréstimo do livro ao amigo Gustavo M.Reis e a foto da capa ao John Nascimento, do Canadá.

Porto (Portugal), 14 de Novembro de 1960:

 

 “imprimatur”

Mons. Pereira Lopes,

Vigário Geral

(Artigo de Hugo Ferreira Pinto)
hugoap@terra.com.br