A IMPLICÂNCIA DO VESTIR

A IMPLICÂNCIA DO VESTIR
É o vestuário objeto particular da solicitude, porque o cuidado excessivo no vestir tem por efeito mais ou menos próximo: perverter a inocência, insidiar à castidade, alimentar a vaidade, comprometer a saúde, consumir recursos preciosos que deviam utilizar-se para o bem e malbaratar em futilidades o tempo, que o cristão devia empregar dignamente. É, por isso, origem de muitas faltas graves e óbice a uma vida de fé e piedade. 
 
Princípios:
 
1. É pecado grave trazer vestidos, que deixam a descoberto o peito e outras partes notáveis do corpo que o decoro manda subtrair aos olhares dos semelhantes. 
 
2. É pecado grave introduzir nos costumes dum país ou duma localidade decotes muitopronunciados, estranhos ou escandalosos. 
 
3. É igualmente falta grave usar processos de vestir que prejudiquem gravemente a saúde. 
 
4. É pecado pelo menos venial trazer a descoberto partes menos notáveis do corpo, que a razão e a decência obrigam a esconder. 
 
5. É pecado venial ainda a afetação nos vestidos, os arrebiques, o exagero nos adornos, em desproporção com os haveres de cada um. 
 
6. É pelo menos óbice grande à perfeição, o cuidado excessivo com o vestir, a prontidão e solicitude em seguir as modas e tudo quanto é excesso e preocupação com o adorno do corpo. 
 
1°. - Especificando: São repreensíveis e condenáveis todos os modos de vestir, de molde a fomentar as paixões sensuais, já patenteando membros que num país cristão é uso cobrir, já manifestando, veladamente que seja, lugares, que no corpo, a mesma natureza convida a esconder; igualmente dignos de reprovação são os que constrangem em demasia os membros, martirizando o corpo e impedindo o seu desenvolvimento - ou sacrificam os interesses do pudor e do recato aos da elegância e da vaidade. 
 
O que persuadem as seguintes razões: 
 
É grave desordem desviar uma criatura do destino para que foi criada, frustrar o seu fim principal e subordinar este ao fim acidental; ora, os vestidos têm
 
a) - Como fim principal e primário o resguardo do corpo, para subtrair ao sentido da vista tudo o que possa melindrar o pudor, já por despertar inutilmente pensamentos perigosos, já por provocar movimentos sensuais; 
 
b) - Como fim principal secundário precaver o corpo contra as intempéries ou acidentes, que só com o vestido se evitam, 
 
c) - O fim acidental é ornamentar o corpo, de sorte a torná-lo agradável à vista, satisfazendo ao mesmo tempo ao gosto do belo e contribuindo, num objetivo de caridade, para a sociabilidade entre os homens. 
 
Obstar, portanto, a qualquer destes fins, ou perturbar a sua ordem e relação, é desmando mais ou menos grave, a que não pode ficar estranho o Diretor espiritual. 
 
. - Desenvolvendo: Após a queda original tornou-se para o homem uma necessidade o uso do vestuário. 
 
a) - Primeiro que tudo precisa este de se precaver contra toda a sorte de intempéries: frio, calor, chuva, vento, neve, etc. 
 
Enquanto por um lado Deus protegeu contra os elementos os irracionais, dando a uns uma lã espessa, a outros aquecida plumagem, guarnecendo a estes com pele quase impermeável, àqueles com pêlos abundantes, não concedeu ao homem indumento natural de espécie alguma, mas, é sabido, concedeu a inteligência para que por si mesmo procure os meios de resistir às inclemências das estações, proporcionando-se vestidos que logrem esse objetivo. 
 
b) - Mas não é tudo; porque o homem veste-se, mais para se libertar dos ímpetos das paixões, do que para agasalhar o corpo. 
 
No paraíso terreal, só depois da desobediência formal às ordens de Deus, é que os nossos primeiros pais ficaram surpreendidos pelo estado de nudez em que viviam; envergonharam-se; recearam e sentiram então a necessidade imperiosa de se cobrirem. Na sua confusão, começaram de coser umas às outras folhas de figueira para ocultarem o que, desde aquele momento, era objeto de vergonha e humilhação. Foi desde esse dia para o homem uma lei o vestir-se. 
 
E por quê? Porque a conseqüência do pecado foi imediata: logo sentiram as tendências desordenadas e depravadas dos sentidos a ofuscar e superar a razão, ao passo que até àquela hora todas as potências inferiores foram submissas e reconheceram a soberania do espírito. 
 
Mais ainda: Deus, prevendo a culpa original, não quis que fossem frustrados os seus intentos, pois se vê claramente que fora desígnio seu que todo o corpo do homem andasse coberto. Nesse intuito, com efeito, sem comprometer as funções da vida individual, reuniu num ponto do corpo, chamado rosto, todos os órgãos destinados a pôr o homem em comunicação com o mundo exterior: os olhos, os ouvidos, o olfato, o gosto e a língua, como a indicar que tudo o mais devia ficar coberto, até a própria cabeça, que Ele mesmo se incumbiu de revestir! 
 
Sim! o rosto faz exceção à lei, porque é aquilo que no homem é menos animal: sobre a fisionomia revela-se a inteligência, nobre apanágio da natureza humana e espelha-se a alma em relâmpagos de luz, de beleza e de vida, como imagem que é do próprio Deus!
 
Fazem ainda exceção as mãos, dóceis instrumentos da inteligência e executoras hábeis dos decretos da vontade. 
 
Passando além destes limites, quebranta o homem as intenções do Criador e transgride as leis inefáveis da honestidade. 
 
Ah! Mas quanto em nossos dias estão postergados os direitos desta bela virtude! 
 
Tresloucadas por um secreto desejo de atrair atenções criminosas e de criar em volta do ídolo da carne, uma atmosfera de simpatias indecorosas, ou, quando menos, dominadas por uma insaciável vaidade, que as faz escravas de modas cruéis e escandalosas, - quantas pessoas aparecem em público com trajes de tal ordem, que antes os deveríamos taxar de roupas de dormir do que admitir como vestes de pessoas dignas e que se prezam! 
 
Com efeito, acentuam-se por tal forma os decotes e, em marcha para a supressão completa dos vestidos, usam-se uns tecidos tão finos e transparentes, a deixar entrever a epiderme, formas e contornos dos membros, que bem podemos dizer que é a equivalência da nudez. 
 
Exibições desta ordem, lançadas como engodo aos instintos voluptuosos da humanidade, que se deprava, avilta, prostitui e brutaliza, são a negação declarada dos bons costumes, do senso moral, da própria razão e um desafio infame cuspido contra as austeras tradições do Cristianismo e contra o Deus que reduziu a cinzas e transformou em fétido charco as cidades de Sodoma e Gomorra! 
 
3°. - Que fará o confessor em presença de penitentes desvairados pelas modas? 
 
Quanto ao luxo no vestir:
 
1º. - Atrair a atenção do penitente para o quadro lastimoso de tantos infelizes, que nem sequer possuem o necessário para viver, jazendo por isso sem arrimo na mais atribulada miséria - ou para o espetáculo doloroso de tantas igrejas pobres, cuja penúria condiz tão mal com a Majestade do grande Rei, que habita no Tabernáculo! 
 
. - Mostrar-lhes que a modéstia é o mais belo ornamento e que os vestidos por mais ricos que sejam, nada acrescentam ao que somos. 
 
. - Fazer-lhes meditar as seguintes passagens da Escritura e dos Santos Padres
 
In vestitu ne glorieris unquam (Eccli. 11,4).
Não te vanglories jamais de teu vestido. 
 
Volo mulieres orare in habitu ornato, cum verecundia et sobrietate ornantes se et non in tortis crinibus, aut auro, aut margaritis, vel veste pretiosa (Tim. 2,9).
Orem também as mulheres em traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade, e não com cabelos frisados, nem com ouro, nem com pérolas ou vestidos custosos.
 
Habentes alimenta et quibus tegamur, his contentí simus (I Tim. 6,8). 
Tendo, pois, os alimentos, e com que nos cobrirmos, contentemo-nos com isto.”
 
Quam excusationem habebis quando Dominus te accusabit de margaritis istis et pauperes in fame perditos in medium aget (Chris. Hom. 21 ad pop.) 
 Que desculpa darás quando o Senhor te acusar de usar essas pérolas enquanto os pobres vagavam com fome por aí?”
 
Quod ornari te putas quod putas comi, impugnatio est ista divini operis praevaricatio veritatis (Ambros. de hab. virg.). 
“Que te julgues mais gentil por te considerares adornada, é essa prevaricação uma impugnação da divina obra da verdade.”
 
Quod nascitur, opus Dei est; ergo quod fingitur, diaboli negocium est (Tert. de cultu mulier.). 
“O que nasce é obra de Deus; logo, o que se finge é negócio do diabo.”
 
Quanto aos decotes: 
 
. - Inspirar horror ao grave escândalo daqueles que usam vestidos imodestos: lançam óleo sobre o fogo das paixões e facilitam ao demônio a sua obra de perversão; tudo isto por um pequenino e mesquinho interesse de vaidade!
 
2º. - Aconselhar a leitura das vidas dos Santos, que até nas situações mais elevadas, deram exemplos tão belos de modéstia e recato! 
 
. - Às pessoas cultas, expor os princípios acima desenvolvidos acerca do fim providencial dos vestidos.
 
. - Convidá-los a meditar os seguintes pensamentos dos Santos: 
 
Spernat bombicum telas, vestimenta paret quibus pellatur frigus, non quibus vestita nudentur (Hieron. Ep. ad Laetam). 
“Renunciar aos tecidos de luxo é necessidade patente para aqueles a quem a vestimenta veste e não para aqueles a quem os vestidos desvestem.”
 
Si vir vel mulier se ornaverit et vultus hominum ad se provocaverit, et si nullum inde sequatur damnum, judicium tamen patietur, quia venenum attulit, si fuisset qui biberet(Acerm. Ep. ad Nepat.). 
Se varão ou mulher se adornar e provocar o olhar do homem, sofrerá o juízo ainda que não se tenha seguido dano algum, por ter oferecido um veneno embora não haja havido quem o bebesse.”
 
Vestium curiositas deformitatis mentium ac morum indicium est (Bern 3-De consid.). 
A curiosidade no vestir é uma deformidade da mente e sinal de capricho.
 
At corporis cultu innumera fiunt mala, arrogantia quae intus nascitur, despectus proximi, fastus spiritus, animae corruptio voluptatum illicitarum comes (Chris. Hom, in Gen.).
Do culto ao corpo se seguem inumeráveis males: a arrogância que nasce de dentro; o desprezo do próximo; a soberba do espírito; a corrupção da alma companheira de desejos ilícitos.
 
Vis ornare faciem? non margaritis orna, sed modestia et honestate (Chris. Hom. 21 ad pop. Antioch.). 
Queres adornar o rosto? Adorne-o com a modéstia e a honestidade e não com pérolas.
 
(A Arte da Direção das Almas - Versão de A.A.P, com imprimatur, 1925)