A MULHER, IMAGEM DE DEUS

1. A Dignidade da Mulher.

João Paulo II, com sua carta «Mulieris Dignitatem», criou um «antes» e um «depois» na Igreja, com sua visão da mulher como imagem de Deus, afirmou a teóloga espanhola Castilla de Cortazar no congresso vaticano sobre «Mulher e homem, a totalidade do humanum» de 7 a 9 de fevereiro.
«É a primeira vez que no Magistério se afirma explicitamente que a mulher, enquanto mulher, é imagem de Deus», disse em referência à carta apostólica do Papa Karol Wojtyla, publicada há 20 anos.

Desta forma, «o corpo sexuado é a imagem de Deus», explicitou, «homem e mulher os criou» (Gênesis 1, 27): «o corpo é expressão daquilo que a pessoa é em seu ser mais íntimo», acrescentou, em sua palestra oferecida ante a reunião internacional organizada pelo Conselho Pontifício para os Leigos.

Blanca Castilla de Cortazar, docente de Teologia no Instituto João Paulo II de Madri, afirmou que «a teologia da imagem manifesta nos versículos bíblicos "mulher e homem os criou" a natureza do homem como ser racional e livre».

O tema de sua palestra foi precisamente «Deus criou o homem à sua imagem, à sua imagem os criou, homem e mulher os criou».
«A ampla novidade de João Paulo II - revelou - é a dimensão relacional que está inscrita no ser humano. Uma relação que supõe a perfeita igualdade», revelou esta doutora em teologia pela Universidade de Navarra.
«O modo de procriar - ilustrou - apresenta de forma plástico a maternidade como uma relação diversa da paternidade: o homem, ao doar-se, sai de si mesmo e, saindo de si, dá à mulher e seu dom fica nela: a mulher o faz sem sair de si, mas acolhendo dentro de si.»

Estas duas formas de dar-se são complementares, de outra maneira «o homem sem a mulher não teria aonde ir e a mulher, sem o homem não teria a quem acolher: a diferença destas duas relações é o ser orientadas uma à outra, isto é o que dá a possibilidade da unidade entre os dois; se ambos se deram na mesma direção, caminhariam paralelamente sem encontrar-se».

Disso se deriva que «a forma de amar e de doar-se aos outros é esponsal, a abertura relacional é estruturada espontaneamente», afirmou a palestrante.

Blanca Castilla recordou que a carta «Mullieris Dignitatem» é um documento que não somente fala da mulher, mas se refere a uma antropologia e à teologia.

«A imagem de Deus não somente se dá em cada pessoa individual, mas no viver para cada um; a relação enquanto nos abre ao amor e possibilita a comunhão de pessoas também faz parte não só da imagem de Deus mas é a plenitude da imagem.»

«João Paulo II diz que a imagem de Deus é uma imagem trinitária, ou seja, que para descobrir profundamente a originalidade da diferença entre homem e mulher deve-se fixar-se que em Deus há uma diferença dentro da Trindade que não destrói a igualdade; isso é uma afirmação que pode ampliar todos os tratados da dogmática», revelou.

Estes estudos são «teologicamente uma tarefa apaixonante» e por outra parte «também se vê que há tarefas pendentes, além dos princípios da antropologia personalista e da Imago Trinitatis que João Paulo II inaugurou; ele não teve tempo de explorá-lo totalmente e portanto é preciso, por exemplo, a partir dessas coordenadas, explicar o que é a analogia esponsal».

«O que pode acontecer de mais terrível ao homem é ter uma liberdade sem ter um projeto, sem ter um lugar aonde ir, sem ter algo a realizar, então a dignidade humana, que também se manifesta no corpo, que se manifesta na sexualidade - que se manifesta em ser homem e em ser mulher - não um limite que eu posso manipular com minha liberdade, mas parte de algo que recebi e, realizando-o conforme a sua dignidade, é como eu posso alcançar a felicidade.»



2. A \"coisificação\" das mulheres


As mulheres contribuíram para fomentar o consumismo que as coisifica, e isto é resultado do pecado original, afirmou Helen Alvare em 9 de fevereiro passado, no congresso vaticano celebrado em Roma sobre «Mulher e homem, a totalidade do humanum».

Alvare foi porta-voz de questões relativas à vida humana da Conferência Episcopal dos Estados Unidos e é professora da Universidade Católica da América em Washington.

Dado nosso ambiente de consumismo desenfreado, «era quase inevitável que os seres humanos se convertessem no último produto de consumo - explicou Alvare. A beleza física das mulheres e sua complementaridade sexual com os homens as tornam especialmente desejáveis em uma economia comercial».

«Oscilam os números referentes ao dinheiro que se ganha com as imagens sexualizadas de mulheres. Estima-se que, como mínimo, hoje a indústria da pornografia tem um valor anual de 60 bilhões de dólares. Também se calcula que a pornografia atrai 40% de todos os usuários da internet nos Estados Unidos ao menos uma vez ao mês, 70% dos usuários da internet homens entre 18 e 34 anos, e a metade de todos os clientes de hotel», explicou Alvare.

Contudo, acrescentou, «o grau no qual as mulheres, individualmente e através de grupos organizados, assumiram sua própria coisificação como artigos de consumo é um aspecto especialmente preocupante de nossa atual situação».

Alvare acrescentou que «em sua série de conversas sobre a Teologia do Corpo, e na ?Mulieris Dignitatem?, João Paulo II fala do efeito do pecado original sobre as mulheres. Repete as palavras que Deus "dirigiu à mulher" após seu primeiro pecado: "Teu desejo se dirigirá para teu marido e ele te dominará". Isto indica que a mulher desenvolve um desejo insaciável de uma união diferente. Não por uma relação de comunhão, mas uma "relação de possessão do outro como o objeto do próprio desejo"».

«Inclusive um observador leigo teria de concluir que a cooperação das mulheres, inclusive animando a coisificação de seus corpos hoje, parece uma moderna manifestação da inclinação que os católicos chamam de "pecado original". As mulheres rebaixam a si mesmas perseguindo a crença de que isso as levará à união com um homem.»

«Isso não se limita à indústria pornográfica, nem à publicidade comercial, cinema ou televisão - sublinhou Alvare. As mulheres normais compram roupas desenhadas para destacar ou expor aquelas partes de seu corpo associadas ao sexo. Muitas mulheres com freqüência também se rebaixam com o que dizem ou expondo-se a meios que gradualmente as insensibilizam ante a proposta de que as mulheres são objeto de consumo belos e sexuais.»

«Um aspecto final preocupante da conivência das mulheres em sua própria coisificação - acrescentou Alvare - é a implicação de famosas deformações do feminismo que insistem em que estão marcando um ponto a favor das liberdades das mulheres, identificando liberdade com sexualidade incontrolada.»

«Por outro lado, pode se ver quão forte era a tentação das mulheres de romper com os papéis que lhes designavam antigamente», «mas esta resposta do feminismo era e continua sendo fundamentalmente defeituosa».
Este tipo de feminismo «se inspirou para as suas orientações nos piores aspectos da conduta masculina. De maneira que se animava a mulher feminista a ser uma criatura aventureira sexualmente, a desprezar o casamento e os filhos, guiada pelo dinheiro e pela carreira profissional - concluiu Alvare. O feminismo instava a mulher a imitar a versão masculina do pecado original - dominação - para conseguir igualdade e felicidade».