A SOMBRA BENFAZEJA DA CRUZ

Poderia Nª Senhora não chorar?
Numerosos exemplos contemporâneos de fatos explicam as lágrimas que Nossa Senhora vem derramando nos últimos tempos.
Denunciamos a irreligiosidade, o nudismo progressivo, a imoralidade galopante, o aborto criminoso, os pecados contra a natureza, não apenas entre pessoas do mesmo sexo mas até com animais, as invasões da propriedade alheia, no campo e na cidade, o desfazimento de todas as hierarquias legítimas, os atentados contra a inocência infantil, as drogas.
Tudo isso leva a compreender por que Nossa Senhora chorou em La Salette (França), em Rocacorneta (Itália), em Granada (Espanha), mostrou-se triste em Fátima e em Lourdes. Há imagens d’Ela que choram por esse mundo afora, como sinal evidente da dor que lhe causam as condições de nossa época.
 
Mas por que os homens buscam tanto o pecado, sem se importar com as ofensas que fazem a Deus? Por que preferem o hálito nauseabundo de Satanás às doçuras castas e sublimes da Santa Igreja?
 
Querem gozar a vida, e por isso vão à procura de prazeres cada vez maiores, mais delirantes, mais antinaturais. Fogem do sofrimento e da cruz como de uma maldição. A plenitude da vida humana estaria no prazer. A cruz seria a antivida.
 
Poético e profundo
Como a realidade é diferente disso... Define-a magnificamente um Doutor da Igreja: “A vida é apenas a sombra que projeta a cruz de Jesus Cristo: fora dessa sombra não há senão morte” (*).
Impressiona à primeira vista, nesse pensamento, a beleza da formulação. Participa ela em algo da grande poesia que se desprende dos livros da Sagrada Escritura, chamados da Sabedoria.
Porém, depois de deter-se na degustação de tão alcandorada frase, o espírito humano procura naturalmente seu sentido profundo. E o encontra.
Foi pela cruz que Nosso Senhor nos trouxe a vida da graça, a única que verdadeiramente pode ser chamada vida, neste vale de lágrimas. Se Ele não tivesse sido crucificado por nós, de que nos adiantaria esta existência natural, incapaz por si só de alcançar o Céu e de participar eternamente da própria vida de Deus?
 
A sombra benfazeja da cruz
E esta vida da graça que Ele nos trouxe, e que se comunica a nós com superabundância no batismo, como podemos nós conservá-la, senão por nossa união com a Cruz de Cristo? Na expressão ousada do Apóstolo São Paulo, “completo em minha carne aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo” (Coloss 1,24). Não que a Cristo tenha faltado algo do que deveria dar, mas é que devemos nós também sofrer a nossa parte, ainda que imperfeita, para nos unirmos a Ele
De fato, pela cruz nos veio a Redenção, o perdão dos pecados, e abriram-se as portas do Céu. Do alto do Calvário, onde foi plantada a cruz de Nosso Senhor projeta sua sombra até o fim dos tempos. Quem se acolhe a essa sombra permanece na vida, ou seja, em Jesus Cristo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).
Portanto, querer construir um mundo de pleno gozo, de alegria sem nuvens, afrontando para isso inclusive a Lei de Deus, é afastar-se da sombra benfazeja da cruz, é abraçar a frustração já neste mundo e a morte eterna no outro.
Poderia Nossa Senhora não chorar?
 
 
* De laudibus Beatae Mariae Virginis, lib. I, cap. VII; de autor anônimo. Este livro encontra-se inserido nas obras de Santo Alberto Magno.