CARTA AOS PADRES - Beato José de Anchieta

Existem pseudo-evangelizadores que se aproximaram dos índios, só lhes trazendo danos materiais e espirituais.

Este fato desastroso gerou Preconceitos irremovíveis contra a Evangelização dos povos indígenas; preconceitos de que se valem, por ex., Evo Morales e Hugo Chávez em suas falas demolidoras da Civilização Cristã.

Atualmente, a situação é terrível, pois a maior parte dos missionários parece ter desistido de catequizar os índios, ocupando-se tão somente de administrar, nem sempre de modo cristão, as necessidades temporais desses índios; chegam a inculcar racismo nos indígenas contra os não-indígenas!

Mas houve uma época em que sacerdotes missionários realmente adoradores de Cristo se aproximaram dos índios. Isto é tão verídico que é atestado até por pessoas sem religião que antipatizam com a Igreja; até essas pessoas reconhecem o amor ao próximo com que os citados sacerdotes conviveram com os índios.

Estes sacerdotes eram o padre Manuel da Nóbrega e depois, o Beato José de Anchieta e seus discípulos. Todos foram grandiosos, mas destacamos aqui o Beato José de Anchieta:

 

   O Grande Apóstolo do Brasil nasceu no Arquipélago das Canárias, em 1534, e foi estudar em Coimbra, onde ingressou na Companhia de Jesus. Mandado ao Brasil em 1553, tornou-se o braço direito do Padre Manuel da Nóbrega, que já estava no Brasil desde 1549. A vida do Padre Anchieta é um tecido de episódios milagrosos. Tal era o domínio que tinha sobre a natureza e sobre os animais que foi chamado o Novo Adão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Converteu e batizou muitos milhares de indígenas e assentou as bases da Civilização Cristã na América portuguesa. Ajudou o Padre Nóbrega na fundação e consolidação da cidade de São Paulo. Teve papel eminente na expulsão dos calvinistas franceses da Baía da Guanabara e na fundação da cidade do Rio de Janeiro. É autor de um famoso poema latino dedicado à Imaculada Virgem, além de muitas obras poéticas e teatrais. Faleceu na aldeia de Reritiba, Estado do Espírito Santo e foi beatificado em 1980.

 

(Fonte: Boletim da Irmandade do Santíssimo Sacramento, junho de 2008)

 

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CARTA DO PE. ANCHIETA AOS PADRES E IRMÃOS DE COIMBRA

 

A graça e o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo seja sempre em nosso contínuo favor e ajuda. Amém.

 

Caríssimos padres e irmãos.

 

Grande creio que será o desejo que lá terão de saber a nosso respeito, porque, se o medirmos pelo que nós aqui temos de saber dos de lá, não pode deixar de ser muito grande. Mas é necessário que tenhamos paciência, pois apenas de ano em ano parte um navio. Será isto ocasião de mais intimamente nos amarmos e nos unirmos espiritualmente, pois, nem sequer por cartas, podemos corporalmente. No que não vos damos vantagem, porque não se pode apartar de nossos corações a contínua lembrança desses caríssimos irmãos, de sua vinda para colher algum fruto, do muito que por falta de obreiros se perde nestas vastíssimas terras da gentilidade, que estão mui secas por falta da água salutar da Palavra de Deus.

Estamos, como lhes escrevi, nesta Aldeia de Piratininga, onde temos uma grande escola de meninos, filhos de índios, ensinados já a ler e escrever, e aborrecem muito os costumes de seus pais, e alguns sabem ajudar a cantar a Missa. Estes são nossa alegria e consolação, porque seus pais não são muito domáveis, posto que sejam muito diferentes dos das outras aldeias, porque já não matam nem comem contrários, nem bebem como dantes.

Dia de São Lourenço, se deram algumas roupas a alguns deles, do pano que El-Rei nos dá de esmola, coisa com que folgam muito. E assim quase todas as noites se juntam a cantar coisas de Deus em sua língua, Alguns de outras aldeias se vêm a fixar nesta aldeia com suas casas.

Da maneira dos carijós, de que outras vezes escrevi, e de outras nações, para as quais há por aqui entrada aberta, temos muito boas notícias e muita esperança de que haja o Senhor de fazer nelas muito fruto. E agora temos até mais do que notícias, porque veio cá um principal destes índios que chamam carijós, que é senhor daquela terra, com muitos criados seus, e não veio senão a buscar-nos para que vamos a suas terras a ensiná-los. Diz-nos sempre que lá vivem eles como animais sem saber as coisas de Deus. E afirmo-lhes, caríssimos irmãos, que é bom cristão e mui discreto, que nenhuma coisa tem de índio.

Nosso Senhor, por sua infinita misericórdia plante em toda a terra sua santa Fé, libertando-a do grande cativeiro em que está do demônio, o que todos, caríssimos irmãos, devem pedir com muita instância a Nosso Senhor cada dia em suas orações, nelas se recordando de nós.

 

A 15 de agosto de 1554

 

 

A IMACULADA CONCEIÇÃO E O APÓSTOLO DO BRASIL

 O Pe. Gaspar Ferreira, que foi o súdito do Padre José de Anchieta entre 1587 e 1588, atestou que “era coisa espantosa a grande devoção que ele tinha à Virgem Maria”.

O Pe. Quirício Caxa, seu primeiro biógrafo escreve: “Encomendava-se fortissimamente a Nossa Senhora, de quem era devotíssimo, em especial de sua puríssima Conceição”.

Possuímos vários escritos do “apóstolo do Brasil” sobre a Virgem Maria. Eis, por exemplo, uma poesia de caráter popular:

 

“Menina, formosa estrela,

luzeiro de nossa vida,

que à faulha se nivela ,

mas quis Deus engrandecida

e mais honrada

e mais querida,

sem pecado concebida.

 

Sois maior que todo o Céu

E num ventre estais metida,

Mas recoberta de um véu,

Véu de graça sem medida,

e mais honrada,

e mais querida,

sem pecado concebida.

 

Vós, menina, sois aurora

da vida a nós prometida;

de Deus ao ser mãe, Senhora,

Virgem mãe sereis mantida

e mais honrada

e mais querida,

Sem pecado concebida.

  

“Surto bem mais elevado, escreve o Pe. Hélio Abrantes Viotti, S.J., não já de piedade, mas de estro poético e de doutrina encontramos no Poema De Beata Virgine Dei Matre Maria, monumento de vassalagem de nossa terra à realeza espiritual de Maria. (...) Nela dá José de Anchieta demonstração de seus dotes de artista, de capacidade para ombrear com os representantes da literatura universal. Para realçar ainda o valor dessa obra, recordem-se as condições de verdadeiro heroísmo, em que, exilado entre selvagens truculentos, elaborou Anchieta (e escreveu na areia da praia) seus belíssimos elegíacos...

Eis como, logo nas primeiras páginas parafraseia a passagem do Livro dos Provérbios (VIII, 22-30), passagem aproveitada pela Igreja nos textos litúrgicos da festa da Imaculada Conceição”:

 

“Antes de lançar com sua palavra

os mundos pelo espaço,

antes de estender a terra imensa,

Deus te concebera em sua mente eterna

e te destinara para sua Mãe

na glória da virgindade.

Qual serias então aos olhos do divino Pai,

Quando surgiu no universo o turbilhão dos mundos?

Ainda as ondas do mar sem limites

não rojavam pelas praias,

nem deslizava o rio em curvas caprichosas;

ainda do tremedal fecundo as fontes não brotavam,

nem assentavam sobre as moles gigantescas

os picos alcantilados:

e já te concebia em sua mente o Pai supremo,

que tu havias de conceber em teu seio, como a filho,

para purificar o mundo inteiro das hediondas máculas

e ser eficaz medicinas as minhas chagas.

 

Quem pode dizer a tua formosura, o teu encanto,

se te idolatrou o artífice divino?

Futura salvação, prometida ao primeiro pai,

tu lhe havias de restituir a vida

no casto fruto de tuas estranhas.

Com o letal veneno

Eva nos havia de corromper:

Concebida sem mácula,

Apresentar-nos-ias tu o antídoto.

Tremeu, ao teu nome da segunda mulher,

a astuta serpente,

que enredara em seus laços a primeira.

Concebida em seio materno como todos nós,

tu, ó Virgem, foste livre do labéu

que mancha os outros todos,

e esmagas ao calcanhar

a cabeça do enroscado dragão,

retendo sob as plantas sua fronte humilhada .

Toda bela de alvura e luz,

não houve sombra em ti, doce noiva de Deus!

Jamais se estampou em teu peito a mancha do crime;

nódoa alguma, por mínima que fosse,

empanou jamais a tua beleza.

Ó formosura sem par...”