O ATAQUE PESSOAL AOS HEREGES - As idéias más tem que ser combatidas

(Texto de Dom Félix Sardá y Salvani, em “El Liberalismo es pecado”. Recordamos aos nossos leitores que dessa obra disse a Sagrada Congregação do Index, em carta de seu Secretário datada de 10 de setembro de 1887: nela “nada se achou contra a sã doutrina; antes, seu autor merece louvor, porque com argumentos sólidos (...) propõe e defende a sã doutrina na matéria de que trata”.)

“Dirá alguém: ‘Quanto às doutrinas em abstrato, isso ainda passa. Mas é conveniente, ao combater o erro, por mais que este seja erro, cevar-se e encarniçar-se na personalidade de quem o sustenta?’

Responderemos que muitíssimas vezes isso é conveniente, e não só conveniente, senão indispensável e meritório diante de Deus e da sociedade.
E ainda que se pudesse facilmente deduzir esta afirmação do que expusemos acima, queremos contudo considerá-la ex professo aqui, pois é de grandíssima importância.

Efetivamente, não é pouco freqüente a acusação que se faz ao apologista católico de levar sempre o debate para o campo pessoal; e quando se lança a algum dos nossos a increpação de ter feito um ataque pessoal, parece aos liberais, e aos que têm ressaibos de liberalismo, que não é necessário dizer mais nada para o condenar.

E contudo não têm razão; não, não a têm.

As idéias más têm que ser combatidas e desautorizadas, cumpre fazê-las aborrecíveis e desprezíveis e detestáveis à multidão, a qual procuram embair e seduzir.

Mas acontece que as idéias não se sustentam por si mesmas no ar, nem por si mesmas se difundem e propagam, nem por si mesmas fazem todo dano à sociedade.

São como as flechas e as balas, que a ninguém feririam se não houvesse quem as disparasse com o arco ou o fusil.

Ao que empunha a arma se devem, pois, dirigir primeiramente os tiros de quem deseje destruir-lhe a mortal pontaria, e qualquer outro modo de fazer a guerra será tão liberal quanto se queira, mas não terá sentido.

Soldados com armas de envenenados projéteis são os autores e propagandistas de doutrinas heréticas; suas armas são o livro, o jornal, a palestra pública, a influência pessoal.

Não basta, pois, esquivar-se para evitar o tiro; a primeira coisa a fazer, e a mais eficaz, é deixar inabilitado o atirador.

Assim, convêm desautorizar e desacreditar seu livro, jornal ou discurso; e não só isto, senão desautorizar e desacreditar em alguns casos a sua pessoa.

Sim, sua pessoa, que este é o elemento principal do combate, como o artilheiro é o elemento principal da artilharia, e não a bomba, nem a pólvora, nem o canhão.

Pode-se em certos casos trazer a público suas infâmias, ridicularizar seus costumes, cobrir de ignomínia seu nome e sobrenome.

Sim, e pode-se fazê-lo em prosa, em verso, em tom sério ou de zombaria, por meio de ilustrações e por todas as artes e por todos os processos que no futuro se possam inventar.

Deve-se ter unicamente o cuidado de não por a serviço da justiça a mentira. Isso não; nisto ninguém se afaste um milímetro da verdade, mas dentro dos limites desta, recorde-se daquele dito de Crétineau-Joly: ‘A verdade é a única caridade permitida à História’; e poder-se-ia acrescentar: à defesa religiosa e social.

Os mesmos Santos Padres que temos citado provam esta tese. Até os títulos de suas obras dizem claramente que, ao combater as heresias, procuravam dirigir o primeiro tiro aos heresiarcas. Quase todos os títulos das obras de Santo Agostinho se dirigem ao nome do autor da heresia: Contra Fortunatum manichoeum; Adversus Adamanctum; Contra Felicem; Contra Secundinum; Quis fuerit Petilianus; De gestis Pelagii; Quis fuerit Julianus, etc. De sorte que quase toda a polêmica do grande Agostinho foi pessoal, agressiva, biográfica, por assim dizer, tanto quanto doutrinária; corpo a corpo com o herege, não menos do que contra a heresia. E o mesmo poderíamos afirmar de todos os Santos Padres.

De onde tirou, pois, o Liberalismo, a novidade de que ao combater os erros se deve prescindir das pessoas, e até mimá-las e acariciá-las?

Atenha-se ele ao que lhe ensina sobre isto a tradição cristã, e deixe os ‘ultramontanos’ [os católicos tradicionais] defenderem a fé como sempre foi defendida na Igreja de Deus.

Que a espada do polemista católico fira, – fira e vá direta ao coração; que esta é a única maneira autêntica e eficaz de combater!”


(Dom Felix Sardá y Salvani. El Liberalismo es pecado. Editorial Ramón Casals: Barcelona, 1960, 20ª. Edição, p. 60-2).