OS DESTRUTORES DA LITURGIA CATÓLICA

Uma autêntica revolução luterana na Igreja Católica.

- Michel Boniface, Pbro - 

Movimento litúrgico desviado:

 
Começaram bem e terminaram mal: assim pode resumir-se a tragédia dalguns monges que, desviando-se um pouco, fizeram naufragar todo o movimento litúrgico. Dom Lambert Beaudoin, dom Casel, Pius Parsh, Romano Guardini etc; estes homens não foram a voz ajuizada da Tradição católica. Quiseram utilizar a Liturgia segundo as suas idéias pessoais e não transmitir o que tinham recebido das mãos santas de mil Papas, bispos e sacerdotes. Influenciados pelo espírito do seu tempo, quiseram fabricar liturgias; menosprezaram o que tinham recebido e decidiram eliminar da Liturgia todo o que a Igreja tinha feito durante dois mil anos, sem tomar em conta que o Espírito Santo deu à Igreja a sua assistência para o transmitido. O padre Bonneterre disse que o duplo pecado mortal do movimento litúrgico desviado é a busca dum arqueologismo desenfreado que se traduz pelo desprezao não somente da Liturgia barroca do Concílio de Trento, senão também da Liturgia da Idade Média. O que conta é a arqueologia dos primeiros séculos que eles vão ressuscitar artificialmente [1].

Alguém dizia: "Dom Casel nos tinha feito sair do beco sem saída das teorias pós-tridentinas do Sacrifício" [2]. Isto significa que Dom Casel , monge alemão, destruiu toda a barreira que tinha levantado o Concílio de Trento frente à heresia protestante que nega a realidade do Sacrifício da Missa. Dom Casel e os seus companheiros triunfaram e as suas idéias penetraram profundamente no catolicismo pelo Concílio Vaticano II e a nova Missa fabricada por uns ideólogos [3].

Este sacerdote entra em 1906, com a idade de 33 anos, na abadia de Mont-Cesar (Bélgica) fundada pelos monges de Maredous em 1899. Rapidamente descobre na Liturgia, seguindo São Pio X, um maravilhoso meio de formar os fiéis na vida cristã. Durante alguns anos trabalhou muito bem. Por desgraça, Dom Lambert desvia-se pouco a pouco do caminho reto e desvia finalmente os fins da Liturgia, insistindo mais fortemente sobre a pastoral litúrgica.

Depois da primeira Guerra Mundial, Dom Lambert se transforma em entusiasta propagandista do Ecumenismo, quer dizer, a reunião de todos os cristãos; as suas idéias continham erros e eram muito perigosas para os católicos. Antes do Concílio Vaticano II (1962-1965), Dom Lambert tinha já traçado o plano ecumênico que hoje destrói a Igreja Católica. "Nosso monge muito expedito, sem confessá-lo, vai fazer passar as suas concepções ecumênicas para o Movimento litúrgico; vai trabalhar (os seus sucessores ainda mais que ele) para adaptar a nossa Liturgia católica romana às necessidades do apostolado, melhor todavia às urgências da união das Igrejas" [4]

Em 1926, o diplomático Roncalli, futuro João XXIII, dizia que o método do seu amigo Dom Lambert era bom. O Papa Pio XI e o Cardeal Merry del Val diziam o contrário. E por esta razão, em 1928, Pio XI publicou a encíclica Mortalium animos, verdadeira carta do ecumenismo católico genuíno. Dom Lambert foi duas vezes julgado por sua atitude perigosa e foi afastado da Bélgica, seu pais natal. Em França, lugar do seu desterrro, trabalhou e semeou as suas idéias revolucionárias na mente de bastantes sacerdotes. Teve muita influência por ser um entusiasta de primeira.

O Movimento Litúrgico desviado será, para os modernistas, uma arma para fazer da Liturgia, antes de tudo, um meio de apostolado; fazer curvar a Liturgia às exigências do apostolado. De teocêntrica, a Liturgia será antropocêntrica. O homem estará no centro da Liturgia e já não Deus. Algo pior, depois da condenação do modernismo por São Pio X, os modernistas, corruptores da fé católica, aproveitam-se da Liturgia para continuar modificando a Igreja por dentro e conduzirem-na ao caos atual (Para entender algo acerca do problema, ler a encíclica Pascendi de São Pio X e Humani generis de Pio XII, que denunciam o modernismo e a nova Teologia).

O seu plano resume-se: 1) adaptar a Liturgia às necessidades do apostolado; 2) urgência da união das Igrejas a todo custo; 3) não dissociar o ecumenismo da liturgia que inocula as idéias nas almas.

Em 1946, o padre Duployé fazia esta confidência: "Temos tido contatos com os representantes de diferentes Igrejas cristãs. Dom Beaudoin esinou-nos a nunca dissociar ecumenismo e liturgia"; o mesmo padre disse que o Movimento litúrgico, na França, sob a influência de Dom Lambert, pôs em marcha uma gigantesca revolução que até agora não se controla. "Os riscos existem, confessa o padre Duployé, e são temíveis. Constituímos uma ponta avançada no clero francês. Não falamos a mesma linguagem que a maioria dos párocos e se a maior parte do episcopado segue o nosso esforço com simpatia, cuja sinceridade não ponho em dúvida, pode muito bem coincidir com uma ignorância quase completa dos princípios que nos guiam... Entre este posto avançado e a maioria do clero francês, devemos vigiar, segundo uma tática que foi muito bem posta em realce... para que não se criem intervalos... devemos saber calar e esperar. Publicamente, não podemos senão apresentar ao clero pão bem cozido. Desde o princípioi do nosso esforço falamos de adaptação e evolução litúrgica. Pergunto-me às vezes se não nos enganamos com estas palavras... Estamos sobre uma máquina lançada a grande velocidade. Somos por ventura capazes de conduzi-la? Confesso, para encerrar, o meu cansaço e os meus temores" [5]. Isto foi revelado em 1968 pelo discípulo de Dom Lambert. Os liturgistas modernos atuam tal como uma associação de iniciados, eles sabem o que querem, mas os demais recebem pão cozido, não sabem para onde os iniciados os conduzem.

No dia 20 de novembro de 1947, Pio XII, por meio da encíclica Mediator Dei, com discernimento e uma habilidade extraordinária, conserva tudo o que haja de bom no Movimento litúrgico, e condena energicamente os seus desvios. O Papa disse:

"Notamos não sem preocupação e sem temor, que alguns estão demasiado ávidos de novidades e se extraviam fora dos caminhos da sã doutrina e da prudência... mancham de erros esta santa causa, de erros que tocam a fé católica e a doutrina ascética" --- Papa Pio XII.

O Papa condena as novidade temerárias:

"Havemos de reprovar a audácia completamente temerária daqueles que, com deliberado propósito, introduzem novos costumes litúrgticos e fazem reviver ritos suprimidos, em desacordo com as leis e rubricas agora em vigor (...) Seria sair da reta via o querer devolver ao altar a sua forma primitiva de mesa". O Papa termina a encíclica avisando os bispos contra "a introdução de uma doutrina falaz, que altera a noção própria da fé católica". Por desgraça, essa falaz doutrina produziu a nova Missa.

A tática dos modernistas é: estar organizados a nível nacional e internacional; produzir muitos livros que tratam de todos os temas litúrgicos; propagar as suas idéias e apresentá-las aos bispos favoráveis; depois de haver convencido os bispos, estimulá-los para que apresentem ao Vaticano estas idéias e desejos dos liturgistas modernistas como se fossem os desejos dos bispos, sacerdotes e povo católico. Também utilizam os documentos do Papa para um fim contrário às intenções do Papa.

A nível europeu, os revolucionários utilizaram Mediator Dei para continuar a subversão litúrgica. eles perderam o sentido católico primordia da Liturgia e as suas reformas fizeram-no perder aos católicos com a mudança da Liturgia a partir do concílio Vaticano II.

Os dirigentes mais perigosos do movimento litúrgico eram apoiados e protegidos pelos mais altos dirigentes da Igreja. Como teria podido o Papa Pio XII suspeitar que os peritos que os cardeais Bea e Lercaro tanto elogiavam eram, na realidade, os mais perigosos inimigos da Igreja? Uma vez falecido Pio XII, Dom Lambert Beaudoin disse a seus companheiros: "Se elegerem Roncalli, tudo estará salvo: ele será capaz de convocar um concílio e consagrar o ecumenismo".
 
Em 1958 Roncalli foi eleito; e como Papa, João XIII abriu as portas da Igreja para a revolução litúrgica e ecumênica por meio do inoportuno e atípico Concílio Vaticano II; reabilitou também os teólogos modernistas -- Yves Congar e Karl Rahner -- condenados por Pio XII; apoiou com todo o seu poder de Papa a reforma da Liturgia; esta suposta reforma foi uma autêntica revolução luterana que causou tantos escândalos, tantos sacrilégios [6] e tantas ruínas espirituais, morais e materiais na Igreja Católica.      
 

(REVISTA SEMPER, no. 95, maio-junho de 2008) 

NOTAS:

[1] Didier Bonneterre, O Movimento Litúrgico, Buenos Aires, ed. Ictión, 1982, pág. 40.
[2] Bonneterre, O Movimento, pág. 40.

[3] Fraternidade Sacerdotal São Pio X, O problema da reforma litúrgica, a missa de Paulo VI e de Vaticano II, estudo teológico e litúrgico, Buenos Aires, ed. Fundação São Pio X, 2001.

[4] Bonneterre, O Movimento, pág. 37.

[5] Padre Duployé, Les origines do Centre de pastorale liturgique, 1943-1949, ed. Salvator, pág. 308, citado pelo pde. Bonneterre, O Movimento, pág. 65.

[6] Padre Enrico Zoffoli, La Comunion na mano, Quiro, Libreria Espiritual, 1985, pág. 107.