PENA DAS ALMAS - Relato de Ana-Maria Hoff e a experiência com as almas

1. Neste relato veremos quais são as recordações de Maria-Ana Hof relacionadas com as a experiência que teve com as almas do Purgatório e como elas mesmas lhe apareciam. O Pe. Barnabé Kirchhuber, O.F.S., confessor das Clarissas do Convento de Angers, submeteu a Venerável, em 1704, a um rigoroso inquérito por ordem do Bispo. No dia 6 de junho entrega ao referido Bispo o relato do inquérito onde são narradas as experiências de Maria-Ana. A Serva de Deus relata:

 

  Somos punidos segundo os pecados que cometemos:

Escreve a Venerável: “Deus instrui-me sobre o que falta às pobres almas e como poderemos ajudá-las... Algumas almas vieram a mim de olhos banhados em lágrimas. Pediram-me que fizesse penitência por elas, vigiando cuidadosamente o meu olhar e evitando toda curiosidade. Outras me apareceram inteiramente esfomeadas, esgotadas, num estado indescritível. Rogavam-me que fizesse por elas um severo jejum a pão e água e que reparasse, assim, as faltas por elas cometidas no decurso da sua vida, pelo excesso de comida e bebida. Outras me fizeram também compreender, pelo seu comportamento, as suas bem infelizes iras e impaciências. Pediam-me que de boa vontade as quisesse ajudar a reparar os seus atos pecaminosos com atos de paciência e mansidão.

       Almas que, durante toda a sua vida, não tinham sido mortificadas, estendiam-me um silício (instrumento de penitência). /Quando eu mesma devia jejuar por elas, uma abundante e bem servida mesa me era apresentada, a significar aquilo que eu própria devia renunciar.

       As almas que tinham pecado com a língua, apareciam-me de boa fechada por um prego, para me fazer compreender que eu devia guardar silêncio. As almas que na terra foram duras de coração ou sem piedade ou misericórdia, não podem ser ajudadas senão com obras de misericórdia e pela generosidade. Aquilo que falta à árvore deve ser expiado na árvore (da cruz). E é por este mesmo motivo que tudo aquilo que faltou noutros assuntos deve ser expiado da mesma forma que a falta foi cometida.

       Os sedutores que se converteram a tempo, mas não tiveram o cuidado de reparar o mal causado, eu mesma os vi sob uma aparência semelhante a do espírito maligno, porque é justamente o mais típico do demônio: Seduzir os homens para os arrastar e levar ao mal.

       No dia 15 de dezembro de 1.690, à meia noite, uma alma do purgatório veio à minha casa. Eu tinha-a conhecido muito bem. Era um músico da Corte. O violinista Jean-georges Loderer era professor de música de meu irmão Franz Philipe. Gostava de beber. Ele não me ligava nada, sempre que eu o prevenia e a verdade é que assim mesmo ia abreviando a sua vida. Morreu no dia 7 de janeiro de 1.688. Eu estava em profundo sono, quando a sua alma me apareceu sob a forma de um enorme sapo, horrível, inchado, pousado no reposteiro do meu leito. Ao acordar, fiquei deveras apavorada, julgando que era o demônio. E eis que essa alma se deu a conhecer, harpejando tão violentamente as cordas da minha cítara que eu julguei que elas iriam partir-se.

       Então o medo desapareceu e perguntei a esta alma porque razão ela me aparecia sob essa forma. Ela reconheceu e transmitiu-me que era para ela uma grande pena, uma pena inteiramente particular, ter de se mostrar sob um tal aspecto. E era obrigado a fazê-lo porque, durante sua vida, se havia comportado como esse animal. Da mesma forma que os sapos, que gostam de estar em lugares húmidos, pantanosos, procuram sempre a humidade, assim também ele gostava de ter sempre a garganta húmida. Essa alma reconheceu também que desse mesmo modo havia abreviado a sua vida e que, se agora não lhe oferecêssemos auxílio, deveria sofrer durante tantos anos como os que ele perdeu por sua culpa, na vida terrestre. Senti muita pena por esta alma e recebi o sinal da sua libertação.

 Fonte: Revista Boa Nova, nº 260.

           2. Uma outra alma sofredora, um maçon, que tinha trabalhado muitas vezes na casa de meus pais, tinha o mau hábito de blasfemar e de beber. Foi-me mostrado num calabouço, por detrás de uma forte grade, como se metem as feras para as guardar. Erguia as suas mãos para mim, chorando, rogando-me com abundante suspiros, que fosse em seu auxilia. Disse-me que sofria abominavelmente na língua, por causa de suas blasfêmias. Por ele devia eu pronunciar com uma piedade muitíssimo especial o Santíssimo nome de Deus e jejuar mesmo à própria água e sofrer  muito por ele. Vi que Deus o tinha retirado prematuramente deste mundo unicamente por causa da sua vida repugnante, e que deveria a sofrer por muito tempo ainda, se não tivesse tido a graça de me aparecer. A sua súplica, expremia-a ele próprio com estas simples palavras: “Tu podes ajudar-me, tu deves ajudar-me”. Estava um dia em oração, diante do quadro da Anunciação, na nossa querida capelinha da Santíssima Virgem na Igreja a de São Miguel, segundo o meu costume. E eis que um homem me apareceu, como se fosse ainda vivo. Triste e a chorar, tinha na mão um copo de vinho, mostrando-me, assim, em que tinha pecado, durante a sua vida. Era um homem ainda jovem. Revelou-me que, se eu não o ajudasse, deveria sofrer durante 40 anos, por ter abreviado muito a sua vida, bebendo em excesso. Mas porque, enquanto ainda vivo, tinha amado, com amor de uma verdadeira criança, a Santíssima Virgem e tinha sido bom para os pobres, a própria Mãe de Deus me exortou a ajudá-lo.

       Jejuei durante 40 dias a pão e água e ofereci por esta alma as minhas orações, as minhas confissões, as minhas comunhões, as indulgências que ganhava e as minhas esmolas, pelas mãos da Mãe de Deus. Ao fim de 40 dias, esta alma foi-me mostrada, já na bem-aventurança eterna.

 

       Somos castigados justamente segundo aquilo em que pecamos (Sab.11,17).

       Hoje, no dia 10 de março de 1714, vi no purgatório uma alma, cujo rosto “sobretudo os olhos” estava tão horrivelmente destruído, que me é impossível descrevê-lo. Soube depois que esta alma, no decurso de sua vida mortal, gostava de contemplar imagens indecentes e más, mas que tinha tido, no entanto, a grande graça de morrer em espírito de arrependimento. Foi-me também manifestado o grande mal que fazem estas más imagens e estas más ilustrações.

      No dia 16 de setembro de 1704, apareceu-me a condessa de Sternberg, dama da nobreza da Boêmia. Tinha muito que sofrer por causa da nudez que ela própria expunha aos olhos de toda a gente, usando vestes decotadas. Como havia sido completamente esquecida pelos seus familiares, apareceu-me pavorosamente envelhecida. Ouvi-lhe dizer com tristeza: “Não irei tão depressa para o céu”. No dia 8 de janeiro de 1714, uma irmã conversa da nossa Ordem (Carmelita) veio ter comigo. O seu rosto estava destroçado ou arruinado como que por uma doença cancerosa. Foi-me revelado que esta irmã, no decurso de sua vida, era um tanto altiva ou vaidosa, pela sua bela apresentação. Uma outra alma da nossa Ordem apareceu-me. O seu aspecto era tão lastimoso como se as aves de rapina lhe tivessem devorado completamente o rosto. E também esta teve de se me apresentar assim porque, em vida, tinha sido orgulhosa pelo seu belo rosto e quase não se conseguia dominar.

       No dia 13 de setembro 1703, uma alma veio ter comigo. Eu tinha-a conhecido muito bem, em vida. Aproximou-se de mim e tocou-me com a sua mão na fronte. Durante três dias, eu tive a impressão de que se me havia enviado uma touca muito pesada. Perguntei-lhe o que me queria ela fazer entender por isso. Ela confessou-me que tinha sido muito incrédula e cabeçuda no decurso de toda a sua vida; que tinha o hábito de se guiar apenas pela sua cabeça. E assim ela havia caído em muitas faltas e numa grande desordem. No dia 20 de janeiro de 1723, uma alma apareceu-me com os olhos fora das órbitas, horríveis de ver. Soube que durante a sua vida ela era colérica e invejosa do seu próximo e áspera  sobretudo para com os pobres. No entanto, esta alma tinha tido a grande graça de se poder preparar para a sua última hora.

 

       O privilégio sabatino

       No dia 17 de outubro de 1721, numa sexta-feira, às 04,00 horas da manhã, senti-me incitada a rezar pela condessa Maria-Ana José Preising com a qual tivera freqüentes relações e que estava em dores de parto. Às 09,00 horas da manhã, a condessa morreu. E mostrou-se-me no coro, imediatamente a seguir à sua morte, toda contente, porque tinha sido muito piedosa durante a sua vida. Apareceu-me tal como em vida, tendo na mão uma maçã, que ela mesma partiu em duas com grande satisfação.

       Compreendi por ela como se falta ao dever, fazendo do dia noite e da noite dia. A condessa pediu-me, sobretudo a comunhão, que ela própria não tinha feito muitas vezes, durante a sua vida. Confessou-me que no comer, ela quase não se privava de nada, julgando que isso não seria necessário e que tinha esbanjado inutilmente muito tempo. No dia 18 de outubro, toda comunidade ofereceu por ela a Sagrada comunhão. Na sexta-feira, dia 24 de outubro, ela entrava na bem-aventurança eterna, por causa do privilégio sabatino, ligado à confraria de Nossa Senhora do Carmo, cujo escapulário a condessa usava sempre. Eu própria a vi lá no alto, com uma alegria indescritível, e ouvi um cântico maravilhosamente belo. Contava-se : “Vânitas vanitatus” (vaidade das vaidades).

       O motivo pelo qual a condessa havia entrado tão depressa no céu é que, como jovem-mãe ela mesmo se havia entregue inteiramente à vontade de Deus e tinha pedido, por ela mesma, com um ardentíssimo desejo, os Sacramentos.

 

Pais que se opõem à vocação dos filhos

       Quanto Deus castiga severamente àqueles que se opõem à vocação de filhos, é o que eu desejaria mostrar, citando o seguinte caso: Em fevereiro de 1709, vi uma alma inteiramente mergulhada no fogo. Durante a sua vida, esta pessoa tinha uma fábrica de cerveja. E tinha uma filha, que colocou num convento para ali ser educada, afim de que não fosse corrompida em casa, pelos clientes. A criança aplicou-se e habituou-se de tal forma ao convento, que se decidiu a permanecer nele permanentemente. Quando a mãe se deu conta desta inclinação, voltou a trazer a menina para casa, sob o pretexto de prová-la, mas a verdade é que foi para lhe meter na cabeça outras idéias. Três semanas depois, a mãe caiu doente e morreu, passados poucos dias. Hoje, dia 12 de fevereiro, foi-me dado vê-la neste estado indescritível mergulhada em fogo. E ela não me pediu nada mais que não fosse o rezar pela as filha, para que ela persistisse no bom propósito que tinha e que pudesse realizar a sua intenção, porque só assim ela mesma veria diminuída a sua pena e seria liberta do Purgatório. Em 1704, veio ter comigo uma alma que tinha deixado este mundo, 15 anos antes, e que todos tínhamos por muito piedosa. Ela disse-me: “Não se chega assim tão facilmente ao Céu”.

 Deus não faz acepção de pessoas

       “No dia 24 de fevereiro de 1704 senti-me interiormente incitada a oferecer as minhas orações pela alma da avó da princesa-eleitora. No dia 26 de fevereiro, fui convida a rezar pelo príncipe-eleitor Ferdinand-Maria, falecido no dia 26 de maio de 1679. Na mesma noite, tive a visita, não apenas da princesa-eleitora, mas também da princesa-eleitora Adelaide, falecida no dia 18 de março de 1676 e de sua filha Maria Ana Cristina, falecida em 20 de abril de 1690, como esposa do Rei da França, Luiz XV. Suportei nesse dia, duros sofrimentos.

        No dia 22 de fevereiro, no momento da comunhão, senti a esperança de que ela seria em breve liberta e via-a também sofrer menos. No dia 29 de fevereiro, depois de ter passado três horas a rezar e, sobretudo, a fazer atos de amor por essas pobres almas, vi pouco depois das quatro horas da manhã, as almas do principe-eleitor, de sua esposa e de sua filha, assim como a alma da avó da princesa-eleitora, entrarem todas as quatro gloriosas no céu. Pouco depois outras almas se anunciaram e tive de rezar muito especialmente pelas famílias dos soberanos da Áustria e da Espanha.

        No dia 17 de junho de 1696, faleceu Jean III Sobieski, rei da Polônia, na idade de 72 anos. Já há alguns meses antes tive uma revelação a respeito do rei da Polônia: uma alma anunciou-se-me com ruído em minha casa e a verdade é que fiquei muito angustiada, durante a noite. No dia da festa de nossa fundadora, Santa Teresa, no dia 15 de outubro, fui de repente acordada à meia-noite e tive de me colocar apressadamente a rezar.

         Rezei, sobretudo pela princesa-eleitora Teresa-cunégonde, filha do rei Jean III, porque era o dia da sua festa. Enquanto rezava, veio-me à idéia de rezar também por todos os defuntos da família do príncipe eleitor, sem pensar particularmente em nenhum. Na oitava da festa de Santa Teresa, vi essa alma que se me havia já manifestado, muitas vezes, como grande senhor, mas que não falava. De dia, via-a também ao meu lado direito. Quando me apercebi bem da sua presença, desapareceu, sem me manifestar qualquer coisa que fosse. No dia 4 de novembro, na oitava dos fiéis defuntos, que era também o primeiro domingo do mês, senti-me, embora ligeiramente, levada a rezar e oferecer a minha comunhão por essas altas personalidades já falecidas.

         No dia 6 de novembro, à meia noite, fui de novo acordada precipitadamente e ouvi essas palavras: “Reza pelo Pai da princesa-eleitora”. Assim o fiz. Durante essa oração, esta alma me foi manifestada e reconheci todas as suas faltas e quedas. Depois do que, ofereci tudo a Deus por ela, mas de um modo muito particular o Precioso Sangue de Cristo. De 6 a 11 de novembro, apliquei-me a ganhar o maior número possível de indulgências por essa alma e foi-me dada a esperança de que se libertaria. No dia 11 de novembro, festa de São Martinho foi-me mostrado em visão um delicioso banquete. Foi-me dado a conhecer também que esta alma iria ser em breve admitida ao Banquete Celeste. Durante a Santa Missa, vi com os olhos do meu corpo esta alma, brilhante, de um vivíssimo brilho, a subir ao céu e,  no mesmo instante, toda a angústia, por assim dizer, desapareceu.

         Concluo dizendo que certamente ninguém imaginará o que me custaram as Almas do Purgatório. Mas, experimentei por mim própria que as almas de pessoas altamente colocadas me atormentaram muito mais que outras de condição mais modesta.

Ana-Maria Ho