VISÕES DE ANNA CATHARINA EMMERICH - ( 3ª Parte )

CRUCIFICAÇÃO E MORTE DE JESUS NA CRUZ

- As aparições e a descida de Jesus aos infernos

 - Anna Catharina Emmerich - 3ª Parte-

 

13. Outras aparições depois da morte de Jesus.


Entre os muitos mortos ressuscitados, que dentro e em redor de Jerusalém se contavam cerca de cem, não havia nenhum parente de Jesus. Os túmulos ao noroeste estavam antigamente fora da cidade, mas pelo alargamento da mesma, ficaram depois dentro dos muros. Tive também visões de diversos mortos, que em vários lugares da Terra Santa ressuscitaram, aparecendo aos parentes e dando testemunho de Jesus e da missão que viera cumprir na terra.

 

         Assim vi Zaboc, homem muito piedoso, que tinha dado todos os bens aos pobres e ao Templo e fundado a comunidade dos Essenos, perto de Hebron; foi um dos últimos profetas antes de Cristo e esperava e anelava pela vinda do Messias, de quem tinha muitas revelações; tinha também relações com os antepassados da Sagrada Família. Vi esse Zadoc, que viveu uns cem anos antes de Jesus, ressuscitar a aparecer a diversas pessoas, na região de Hebron. Numa visão anterior vi que foi dos que primeiro depositaram novamente o respectivo corpo e depois acompanharam a alma de Jesus. Vi também vários mortos aparecerem aos discípulos do Senhor, escondidos nas cavernas, exortando-os à fé.

 

         Vi que as trevas e o terremoto espalharam terror e destruição, não só em Jerusalém e arredores, mas também em outras partes do país, mesmo em lugares longínquos. Ainda me lembro dos seguintes casos: Em Tirza desabaram as torres da cadeia, da qual Jesus resgatara alguns presos e vários outros edifícios. Na terra do Cabul houve desabamentos em muitos lugares. Em toda a Galiléia, onde Jesus tinha vivido e pregado mais tempo, vi desabar, em muitos lugares, edifícios, sobretudo muitas casas de fariseus que tinham perseguido Jesus com mais ódio e que então estavam todos na festa em Jerusalém e cujas mulheres e filhos morreram soterrados sob os destroços das casas.

 

         As devastações em redor do lago de Genezaré (mar de Galiléia) eram consideráveis. Em Cafarnaum caíram muitíssimos edifícios; a povoação dos escravos, situada entre Tiberias e os jardins de Zorobabel, Centurião de Cafarnaum, foi quase completamente destruída.

 

         O rochedo que formava uma pequena península no lago e fazia parte de belos jardins do Centurião, perto de Cafarnaum, desmoronou-se todo; o lago entrou pelo vale a dentro e chegou até perto de Cafarnaum, que dantes estava distante quase meia hora. A casa de Pedro e a morda da Santíssima Virgem, entre Cafarnaum e o lago, ficaram intactas. As águas do mar da Galiléia estavam muito agitadas; as margens ruíram em algumas partes e em outras se levantaram. O lago mudou consideravelmente de forma, ficando mais ou menos como está hoje e a configuração das respectivas margens quase não se conhece mais. De maior importância foram as mudanças na extremidade sudoeste do lago, logo abaixo do Tariquéia, onde havia um dique comprido e escuro, que separava o lago de um pântano e dava firme direção às águas do Jordã, ao saírem do lago; todo esse dique foi levado pelas águas, causando vastas destruições.

 

         No lado oriental do lago, onde os porcos dos Gerazenos se tinham lançado no pântano, afundaram-se muitas terras, como também em Gergesa, Gerasa e em todo o distrito de Corazim. Também o monte da segunda multiplicação dos pães sofreu forte abalo e a pedra sobre a qual fora colocado o pão, partiu-se ao meio. Dentro e em redor de Panéas desabaram também muitas casas.

 

         Na Decápolis desapareceram partes inteiras de cidades; muitos lugares na Ásia sofreram grandes prejuízos, como, por exemplo, Nicéa e principalmente muitos lugares a leste e nordeste de Panéas. Também na Galiléia superior vi grande destruição e os fariseus encontraram, ao voltar da festa, muita desgraça em casa. Alguns receberam a notícia já em Jerusalém; foi por isso que os inimigos de Jesus ficaram tão abatidos, até depois de Pentecostes e não ousaram tomar medida alguma importante contra a comunidade do Senhor.

 

         No monte Garizim vi ruir grande parte do Templo. Havia lá um ídolo em cima de um poço, num pequeno Templo, cujo telhado, junto com o ídolo, caiu na água do poço. Em Nazaré desabou metade da sinagoga, da qual os judeus expulsaram Jesus; também a parte do rochedo da qual quiseram lançá-lo no abismo, desmoronou-se.

 

         Muitas montanhas, vales e cidades sofreram forte destruição. O leito do Jordão mudou-se em várias partes; Pois pelos abalos do litoral do mar da Galiléia e pelas mudanças das correntes dos riachos, formaram-se obstáculos e mudou-se a corrente das águas, de modo que o leito do Jordão é hoje muito diferente do que era antes. Em Machérus e em outras cidades de Herodes, ficou tudo calmo e inalterado; essa região estava fora do círculo da penitência e da ameaça, como aqueles homens no horto das Oliveiras, que não caíram e por isso também não se levantaram.

 

         Em algumas regiões, aonde havia muitos espíritos maus, vi-os em grande número afundar-se na terra, juntamente com os edifícios e montes destruídos; os tremores de terra recordaram-me então as convulsões dos possessos, quando o demônio sente que é obrigado a sair. No momento em que, perto de Gergesa, se afundou no pântano parte do monte, de onde outrora os demônios se lançaram no pântano, com a manada de porcos, vi imensa multidão de maus espíritos cair, como uma nuvem sinistra e afundar-se com o monte no abismo.

 

         Creio que foi em Nicéia que vi um acontecimento, de cujos pormenores me lembro só imperfeitamente. Vi um porto, com muitos navios e numa casa, com uma torre alta, perto do porto, vi um homem; era pagão, o capitão do porto. Tinha por obrigação subir muitas vezes à torre e observar o mar, a ver se chegavam navios ou velar por qualquer acontecimento. Vi que, ouvindo forte estrondo sobre os navios do porto e temendo a aproximação de um inimigo, subiu apressadamente à torre; olhando para os navios, viu-lhes pairar acima grande número de figuras escuras, que, com vozes lamentosas, lhe gritaram: “Se queres conservar os navios, leva-os para fora do porto; pois devemos voltar ao abismo; morreu o grande Pan”.

         É o que me lembro ainda distintamente dessa visão; disseram-lhe outras coisas ainda e deram-lhe muitas ordens, onde e como devia revelar, numa viagem marítima iminente, o que lhes tinham dito; exportaram-no também a receber bem os mensageiros que viriam, anunciando a doutrina e a morte daquele que nesse momento tinha falecido.

 

         Os maus espíritos foram desse modo obrigados pelo poder de Deus a avisar esse homem bom, tornando-se assim núncios de sua própria ignomínia. O capitão do porto mandou, pois, pôr a seguro os navios, quando estava iminente uma violenta tempestade; vi então os demônios se lançarem rugindo no mar e a metade da cidade ficou destruída pelo terremoto. A casa com a torre ficou intacta. O homem fez depois longas viagens em navio, cumprindo todas as ordens que recebera e anunciando a morte do grande Pan, como os demônios tinham chamado ao Senhor; mais tarde chegou também a Roma, onde se admiram muito daquela narração. Vi ainda muitas outras coisas desse homem, mas esqueci-as; entre outras, vi que uma das suas narrativas de viagens, misturada com os acontecimentos que contei, se propagou muito entre os povos, mas não me lembro mais da conexão. Creio que tinha um nome semelhante a Tamus ou Tramus.

 

 

           

            14. José de Arimatéia pede a Pilatos o corpo de Jesus.

 

              Mal se tinha restabelecido um pouco a calma em Jerusalém, depois de tantos acontecimentos assustadores, quando Pilatos, tão consternado, foi importunado de todos os lados com narrativas do que sucedera. Também o Supremo Conselho lhe mandou, como já resolvera de manhã, um requerimento, pedindo que mandasse esmagar as pernas dos sacrificados, para que morressem mais depressa e tirá-los depois da cruz, para que não ficassem pendurados durante o Sábado. Pilatos enviou, pois, os carrascos para esse fim ao Calvário.

 

         Pouco depois vi José de Arimatéia entrar no palácio de Pilatos. Já recebera a notícia da morte de Jesus e resolvera, com Nicodemos, sepultar o corpo do Senhor no sepulcro novo que escavara na rocha do seu jardim, não longe do monte Calvário. Creio tê-lo visto já fora da porta da cidade, onde observou tudo que se passou e deliberou o que se devia fazer; pelo menos vi lá homens que, por ordem dele limpavam o jardim do sepulcro e ainda terminavam algumas obras no interior mesmo. Nicodemos também foi a diversos lugares, para comprar panos e especiarias para o embalsamamento do corpo; depois esperou a volta de José.

 

         Esse encontrou Pilatos muito assustado e incomodado; pediu-lhe francamente e sem hesitação licença para tirar da cruz o corpo de Jesus, rei dos judeus, porque queria sepultá-Lo no seu próprio sepulcro. O fato de um homem tão distinto pedir, com tal insistência, licença para prestar a última homenagem ao corpo de Jesus, a quem o juiz iníquo tão ignominiosamente mandara crucificar, abalou-lhe ainda mais a consciência; aumentou-se-lhe ainda mais a convicção da inocência de Jesus e com ela, o remorso; mas, fingindo calma, perguntou: “Então já está morto?”, pois havia poucos minutos apenas que mandara os carrascos matar os crucificados, quebrando-lhe as pernas.

 

         Mandou por isso chamar o centurião Abenadar, que voltara das cavernas, onde falara com alguns dos discípulos; perguntou-lhe se o rei dos judeus já tinha morrido. Então relatou Abenadar a morte do Senhor, às três horas, as últimas palavras e o grito forte de Jesus, o tremor de terra e o abalo que fendeu o rochedo. Exteriormente parecia Pilatos admirar-se apenas que tivesse morrido tão cedo, porque os crucificados em geral viviam mais tempo; mas interiormente estava assustado e amedrontado, pela coincidência desses sinais com a morte de Jesus.

 

         Queria talvez disfarçar um pouco a crueldade com que procedera; pois despachou imediatamente uma ordem escrita, entregando a José de Arimatéia o corpo do rei dos judeus, com a licença de tirá-Lo da cruz e sepultá-Lo. Estava satisfeito de poder assim pregar uma peça aos príncipes dos sacerdotes, que teriam visto com prazer Jesus ser enterrado ignominiosamente com os dois ladrões. Mandou também alguém ao Calvário, para fazer executar essa ordem. Creio que foi o mesmo Abenadar; pois que o vi tomar parte no descendimento de Jesus da cruz.

        

         Saindo do palácio de Pilatos, foi José de Arimatéia encontrar-se com Nicodemos, que o estava esperando na casa de uma boa mulher, situada numa rua larga, próximo do beco em que Jesus, logo no começo do doloroso caminho da cruz, fora tão vilmente ultrajado. Nicodemos tinha comprado muitas ervas e especiarias para o embalsamamento, em parte da mesma mulher, que vendia ervas aromáticas, em parte em outros negócios, onde a própria mulher fora comprar as especiarias que não tinha, como também vários panos e faixas, necessárias para o embalsamamento.

 

         De todos esses objetos fez-lhe um pacote que pudesse como comodamente transportar. José de Arimatéia também foi ainda a outro lugar, para comprar um pano grande de algodão, muito bonito e fino, com seis côvados de comprimentos e vários côvados de largura. Os criados foram buscar no armazém, ao lado da casa de Nicodemos, escadas, martelos, ponteiros, odres, vasilhas, esponjas e outros objetos necessários para aquele fim. Colocaram os objetos menores numa padiola, semelhante àquela em que os discípulos levaram o corpo de João Batista, que tinham raptado do castelo forte de Herodes.

 

 

            15. O coração de Jesus trespassado por uma lança. Esmagamento das pernas e morte dos ladrões.

 

            Durante todo esse tempo reinava silêncio e tristeza sobre o Gólgota. O povo assustado dispersara-se, indo esconder-se em casa. A Mãe de Jesus e João, Madalena, Maria, filha de Cléofas e Salomé estavam, em pé ou sentados, em frente à cruz, com as cabeças veladas, chorando. Alguns soldados estavam sentados no barranco, com as lanças fincadas no chão. Cássio, a cavalo, ia de um lado para outro. Os soldados conversavam do alto do Calvário com outros que estavam mais em baixo. O céu estava nublado e toda a natureza parecia abatida e de luto. Vieram então seis carrascos, subindo o monte Calvário; trouxeram escadas, pás e cordas, como também pesadas maças de ferro de três gumes, para esmagar as pernas dos executados.

 

         Quando os carrascos entraram no círculo do suplício, os parentes de Jesus retiraram-se um pouco. A Santíssima Virgem foi novamente presa de angústia e receio de que os verdugos ainda maltratassem o Corpo de Jesus; pois encostaram as escadas à cruz e subindo, sacudiram o santo Corpo conferindo se apenas se fingia morto. Como, porém, notassem que o corpo já estava inteiramente frio e rígido e João, a pedido das mulheres piedosas, a eles se dirigisse para impedir a crueldade, deixaram provisoriamente o corpo do Senhor, mas não pareciam convencidos de que estivesse morto.

 

         Subiram então pelas escadas nas cruzes dos ladrões; dois esmagaram, com as maças cortantes, os ossos dos braços acima e abaixo do cotovelo, um terceiro fez o mesmo acima e nas canelas, abaixo dos joelhos. Gesmas soltou gritos horríveis. Esmagaram-lhe em três golpes o peito, para acabar de matá-lo. Dimas gemeu com a tortura e morreu; foi o primeiro mortal que tornou a ver o Redentor. Os carrascos desataram então as cordas, deixando cair os corpos no chão e arrastando-os depois com cordas, para o vale entre o Calvário e o muro da cidade, onde os enterraram.

 

         Os carrascos ainda pareciam duvidar da morte do Senhor e os parentes de Jesus estavam ainda mais assustados, pela brutalidade com que haviam procedido e com medo de que pudessem voltar. Mas Cássio, oficial subalterno, homem de 25 anos, ativo e um pouco precipitado, cuja vista curta e cujos olhos tortos, juntamente com os ares de importância que se dava, provocavam freqüentemente a troça dos subordinados, recebeu de repente uma inspiração sobrenatural. A crueldade e vil brutalidade dos carrascos, o medo das santas mulheres e um impulso repentino, causando por uma graça divina, fizeram-no cumprir uma profecia.

 

         Ajustando a lança, que trazia em geral dobrada e encurtada, firmou-lhe a ponta e virando o cavalo, esporeou-o para subir o cume, onde estava a cruz e onde o cavalo quase não podia virar; vi como o afastou da fenda do rochedo. Parando assim entre a cruz do bom ladrão e a de Jesus, ao lado direito do corpo de Nosso Salvador, tomou a lança com ambas as mãos e introduziu-a com tal força no lado direito do Santo Corpo, através das entranhas e do coração, que a ponta da lança saiu um pouco do lado esquerdo, abrindo uma pequena ferida. Quando tirou depois com força a santa lança, brotou da larga chaga do lado direito do Redentor um rio de sangue e água que, caindo, banhou o rosto de Cássio, como uma onda de salvação e graça. Ele saltou do cavalo e, prostrando-se de joelhos, bateu no peito e confessou a fé em Jesus em alta voz, diante de todos os presentes.

 

         A Santíssima Virgem e os outros, cujos olhos estavam sempre fixos no Salvador, viram a súbita ação do oficial com grande angústia e acompanharam o golpe da lança com um grito de dor, precipitando-se para a cruz. Maria caiu nos braços das amigas, como se a lança lhe tivesse transpassado o próprio coração e sentisse o ferro cortante atravessá-lo de lado a lado. Cássio, caindo de joelhos, louvava a Deus, pois, iluminado pela graça, ficou crendo e também os olhos do corpo se lhe curaram e desde então via tudo claro e distinto. Mas ao mesmo tempo ficaram todos profundamente comovidos à vista do sangue que, misturando com água, se juntara, espumante, numa cavidade da rocha, ao pé da cruz; Cássio, Maria Santíssima, as santas mulheres e João apanharam o sangue e a água em tigelas, guardando-o depois em frascos e enxugando-o da rocha com panos.

 

         Cássio estava como que transformado; tinha recobrado a vista perfeita e profundamente comovido, curvava-se diante de Deus, com coração humilde. Os soldados presentes, tocados pelo milagre que se operara nele, prostaram-se de joelhos, batiam no peito e louvavam a Jesus. O sangue e a água corriam abundantemente da larga chaga do lado direito do Salvador, sobre a rocha limpa, onde se juntaram; apanharam-no, com indizível comoção e as lágrimas de Maria e Madalena misturavam-se-lhe. Os carrascos, que nesse ínterim tinham recebido a ordem de Pilatos de não tocar no corpo de Jesus, que doara a José de Arimatéia, para o sepultar, não voltaram mais.

 

         A lança de Cássio, constava de várias peças, que eram ajustadas uma sobre a outra; quando dobrada, parecia apenas um bastão, de pouco comprimento. A parte de ferro que feria, tinha a forma de pêra achatada; quando se queria servir da lança, enfiava-se-lhe a ponta e abriam se em baixo duas lâminas de ferro, curvas e movediças.

 

         Tudo isso se passou em redor da cruz de Jesus, logo depois das quatro horas, quando José de Arimatéia e Nicodemos estavam ocupados em juntar as coisas necessárias para o enterro. Os criados de José de Arimatéia foram, enviados para limpar o sepulcro e anunciaram aos amigos de Jesus no Gólgota que José recebera de Pilatos licença para tirar da cruz o corpo do Mestre e sepultá-lo no seu sepulcro; então voltou João, com as santas mulheres, à cidade, dirigindo-se ao monte Sião, para que a Santíssima Virgem pudesse tomar algum alimento e também para buscar alguns objetos para o enterro. Maria tinha uma pequena habitação nos edifícios laterais do Cenáculo. Não entraram pela porta mais próxima, mas, mais ao sul, pela porta que conduz a Belém; pois a porta para o Calvário estava fechada e ocupada por dentro pelos soldados que os fariseus tinham requisitado, com medo de um levante do povo.

 

 

            16. A descida de Jesus aos infernos.

  

         Quando Jesus, com um grito forte, rendeu a santíssima alma, vi-a, qual figura luminosa, acompanhada de muitos Anjos, entre os quais também Gabriel, descer pela terra a dentro, ao pé da cruz. Vi, porém, que a divindade lhe ficou unida tanto à alma, como também ao corpo, pregado à cruz. Não sei explicar o modo porque se passou. Vi o lugar aonde se dirigiu a alma de Jesus; era dividido em três partes, parecendo três mundos e eu tinha a sensação de que tinha a forma redonda e que cada um estava separado do outro por uma esfera.

 

         Antes de chegar ao limbo, havia um lugar claro, e por assim dizer, mais verdejante e alegre. Era o lugar em que vejo sempre entrarem as almas remidas do purgatório, antes de serem levadas ao céu. O limbo, onde se achavam os que esperavam a redenção, estava cercado de uma esfera cinzenta, nebulosa e dividido em vários círculos. Nosso Salvador, conduzido pelos Anjos como em triunfo, entrou por entre dois desses círculos, dos quais o esquerdo encerrava os Patriarcas até Abraão e o direito as almas de Abraão até João Batista.Jesus penetrou por entre os dois; eles, porém, ainda não o conheciam, mas estavam todos cheios de alegria e desejo; foi como se dilatassem esses páramos da saudade angustiosa, como se ali entrassem o ar, a luz e o orvalho da Redenção.

 

         Tudo se deu rapidamente, como o sopro do vento. Jesus penetrou através dos dois círculos, até um lugar cercado de neblina, onde se achavam Adão e Eva, nossos primeiros pais. Falou-lhes e adoraram-no com indizível felicidade. O cortejo do senhor, ao qual se juntou o primeiro casal humano, dirigiu-se então à esquerda, ao limbo dos Patriarcas que tinham vivido antes de Abraão. Era uma espécie de purgatório; pois entre eles se moviam, cá e lá, maus espíritos, que atormentavam e inquietavam algumas dessas almas de muitas maneiras.

 

         Os anjos bateram e mandaram que abrissem; pois havia lá uma entrada, uma espécie de porta, que estava fechada; os anjos anunciaram a vinda do Senhor, parecia-me ouvi-los exclamar: “Abri as portas!” Jesus entrou triunfantemente; os espíritos maus, retirando-se, gritaram: “Que tens conosco? Que queres fazer de nós? Queres crucificar-nos também?, etc”. 

 

         – Os anjos, porém, amarraram-nos e empurraram-nos para diante. Essas almas sabiam pouco de Jesus, tinham só uma idéia obscura do Salvador; Jesus anunciou-lhes a Redenção e eles lhe cantaram louvores. Dirigiu-se então a alma do Senhor ao espaço a direita, ao verdadeiro limbo, em frente ao qual se encontrou com a alma do bom ladrão que, cercado de espíritos maus, foi precipitada no inferno. A alma de Jesus dirigiu-lhes algumas palavras e entrou então no seio de Abraão, acompanhada dos Anjos, das almas remidas e dos demônios expulsos.

 

         Esse lugar parecia-me situado um pouco mais alto; era como se subisse do subterrâneo de uma igreja à igreja superior. Os demônios amarrados quiseram resistir, não queriam passar; mas foram levados a força pelos Anjos. Neste lugar estavam todos os santos Israelitas, a esquerda dos Patriarcas, Moisés, os Juizes, os Reis; a direita os profetas e todos os antepassados e parentes de Jesus, até Joaquim, Ana, José, Zacarias, Isabel e João.

 

         Nesse lugar não havia nenhum mau espírito, nem tormento algum, a não ser o desejo ansioso da Redenção, que se realizaria enfim. Indizível delicia e felicidade enchia as almas todas, que saudavam e adoravam o Salvador; os demônios amarrados foram obrigados a confessar sua ignomínia diante delas. Muitas dessas almas foram enviadas à terra, para entrar nos respectivos corpos e dar testemunho do Senhor. Foi nesse momento que tantos mortos saíram dos sepulcros em Jerusalém; apareciam como cadáveres ambulantes, depositando depois novamente os corpos, como um mensageiro da justiça deposita o manto oficial, depois de ter cumprido as ordens do superior.

 

         Vi depois o cortejo triunfal do Salvador entrar numa esfera mais baixa, uma espécie de lugar de purificação, onde se achavam piedosos pagãos e tinham tido um pressentimento da verdade  e o desejo de conhecê-la. Havia entre eles espíritos maus, porque tinham ídolos; vi os espíritos malignos forçados a confessar o embuste e as almas adorarem o Senhor com alegria tocante. Os demônios desse lugar foram também amarrados e levados no cortejo. Assim vi o Salvador passar triunfalmente com grande velocidade, por vários lugares onde estavam almas encerradas, libertando-as e fazendo ainda muitas outras coisas, mas no meu estado de miséria não posso contar tudo.

 

         Por fim o vi aproximar-se, com ar severo, do centro do abismo, do inferno, que me apareceu sob a forma de um imenso edifício horrível, formado de negros rochedos, de brilho metálico, cuja entrada tinha enormes portas, terríveis, pretas, fechadas com fechaduras e ferrolhos que causavam medo. Ouviam-se uivos de desespero e gritos de tormento, abriram-se as portas e apareceu um mundo hediondo e tenebroso.

 

         Assim como vi as moradas dos bem-aventurados sob a forma de uma cidade, a Jerusalém celeste, com muitos palácios e jardins, cheios de frutas e flores maravilhosas, de várias espécies, conforme as inúmeras condições e graus de santidade, assim vi também o inferno como um mundo separado, com muitos edifícios, moradas e campos. Mas tudo destinado, ao contrário, a tortura e as penas dos condenados. Como na morada dos bem aventurados tudo é disposto segundo as causas e condições da eterna paz, harmonia e alegria, assim no inferno se manifesta em tudo a eterna ira, a discórdia e desespero.

 

         Como no céu há muitíssimos edifícios, indizivelmente belos, transparentes, destinados a alegria e adoração, assim há no inferno inúmeros e variados cárceres e cavernas, cheios de tortura, maldição e desespero. No céu há maravilhosos jardins, cheios de frutos de gozo divino; no inferno horrendos desertos e pântanos, cheios de tormentos e angustias e de tudo que pode causar horror, medo e nojo.

 

         Vi tempos, altares, castelos, tronos, jardins, lagos, rios de maldição, de ódio, de horror, de desespero, de confusão, de pena e tortura; com há no céu rios de benção, de amor de concórdia, de alegria e felicidade; aqui a eterna, terrível discórdia dos condenados; lá a união bem-aventurada dos santos.

 

         Todas as raízes da corrupção e do erro produzem aqui tortura e suplicio, em inumeráveis manifestações e operações; há só um pensamento reto: a idéia austera da justiça divina, segundo a qual cada condenado sofre a pena, o suplicio, que é o fruto necessário de seu crime; pois tudo que se passa e se vê de horrível nesse lugar, é a essência, a forma e a perversidade do pecado desmascarado, da serpente que atormenta com o veneno maldoso os que o alimentaram no seio. Vi lá uma colunata horrorosa, em que tudo se referia ao horror e a angústia, como no reino de Deus a paz e ao repouso. Tudo se compreende facilmente, ao vê-lo, mas é quase impossível exprimir tudo em palavras.

 

         Quando os anjos abriram as portas, viu-se um caos de contradição, de maldições, de injurias, de uivos e gritos de dor. Vi Jesus falar a alma de Judas. Alguns dos anjos prostraram exércitos inteiros de demônios. Todos foram obrigados a reconhecer e adorara Jesus, o que foi para eles o maior suplício. Grande número deles foram amarrados a um círculo, que cercava muitos outros, que deste modo também ficaram presos.

 

         No centro havia um abismo de trevas, Lúcifer foi amarrado e lançado nesse abismo, onde vapores negros lhe ferviam em redor. Tudo se fez segundo os decretos divinos. Ouvi dizer que Lúcifer, se não me engano, 50 ou 60 anos antes do ano 2.000 de Cristo, seria novamente solto por certo tempo. Muitas outras datas e números foram indicados, dos quais não me lembro mais. Deviam ser soltos ainda outros demônios antes desse tempo, para provação e castigo dos homens. Creio que também em nosso tempo era a vez de alguns deles e de outros pouco depois do nosso tempo.

 

         É-me impossível contar tudo quanto me foi mostrado; são muitas coisas e não as posso relatar em boa ordem; também me sinto tão doente e quando falo dessas coisas, elas se me representam novamente diante dos olhos e só o aspecto já é suficiente para nos fazer morrer.

 

         Ainda vi exércitos imensos de almas remidas saírem do purgatório e do limbo, acompanhando o Senhor, para um lugar de delicias abaixo da Jerusalém celeste. Foi lá que vi também, há algum tempo, um amigo falecido. A alma do bom ladrão foi também conduzida para lá e viu assim o Senhor no Paraíso, conforme a promessa. Vi que nesse lugar foram preparados banquetes de alegria e conforto, como os tenho visto já muitas vezes, em visões consoladoras.

 

         Não posso indicar com exatidão o tempo de tudo que se passou, como também não posso contar tudo quanto vi e ouvi lá porque eu mesma não compreendo mais tudo, já porque podia ser mal compreendida pelos ouvintes. Vi, porém, o Senhor em lugares muito diferentes, até no mar, parecia santificar e libertar todas as criaturas; em toda parte fugiam os maus espíritos diante dele e lançaram-se no abismo. Vi também a alma do Senhor em muitos lugares da terra.

 

         Vi-O aparecer no sepulcro de Adão e Eva, sob o Gólgota. As almas de Adão e Eva juntaram-se-lhe novamente; falou-lhes e com elas O vi passar, como sob a terra, em muitas direções e visitar os túmulos de muitos profetas, cujas lamas se lhe juntaram, próximo das respectivas ossadas e explicou-lhes o Senhor muitas coisas. Vi-O depois, com esse séqüito escolhido, em que seguia também Davi, passar em muitos lugares de sua vida e paixão, explicando-lhes com indizível amor todos os fatos simbólicos que se tinham dado ali e o cumprimento dessas figuras em sua pessoa.

 

         vi-O especialmente explicar as almas tudo quanto se dera de fatos figurativos no lugar me que foi batizado e contemplei muito comovido a infinita misericórdia de Jesus, que as fez participar da graça de seu santo Batismo.

 

         Causou-me inexprimível comoção ver a alma do Senhor, acompanhada por esses espíritos bem aventurados e consolados, passar, como um raio de luz, através da terra escura e dos rochedos, pelas águas e pelo ar e pairar tão sereno sobre a terra.

 

         É o pouco de que me lembro ainda, de minha contemplação da descida do Senhor aos infernos e da redenção das almas dos Patriarcas, depois de sua morte; mas além dessa visão dos tempos passados, vi nesse dia uma imagem eterna de sua misericórdia para com as pobres almas do purgatório. Vi que, a em cada aniversário desse dia, lança por meio da Igreja, um olhar de salvação ao purgatório; vi que já no Sábado Santo remiu algumas almas do purgatório, que tinham pecado contra ele na hora da crucificação.

 

         A primeira descida de Jesus ao limbo é o cumprimento de figuras anteriores e, por sua vez, é a figura da redenção atual. A descida aos infernos que vi, referia-se ao tempo passado, mas a salvação de hoje é uma verdade permanente; pois a descida de Jesus aos infernos é o plantio de uma árvore de graça, destinada a administrar os seus méritos divinos as almas do purgatório e a redenção contínua e atual dessas almas é o fruto dessa árvore da graça no jardim espiritual do ano eclesiástico.

 

         A Igreja militante deve cuidar dessa árvore, colher-lhe frutos, para os outorgar a Igreja padecente, porque essa nada pode fazer em seu próprio proveito. Eis o que se dá em todos os merecimentos de Nosso Senhor; é preciso cooperar, para ter neles. Devemos comer o pão ganho com os suor do nosso rosto. Tudo quanto Jesus fez por nós no tempo, dá frutos eternos; mas devemos cultivá-los e colhê-los no tempo, para poder gozá-los na eternidade.

 

         A Igreja é como um bom pai de família; o ano eclesiástico é o jardim mais perfeito, com todos os frutos eternos no tempo; em um ano tem bastante de tudo para todos. Ai! Dos jardineiros preguiçosos e infiéis, que deixam perder uma graça, que poderia curar um enfermo, fortalecer um fraco, saciar um faminto: no dia de juízo terão de dar conta até do menor pezinho de erva.

 

(fim)